eu também tenho

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Há umas semanas eu li um artigo da Soninha para uma revista em que ela falava sobre defeitos difíceis de confessar, especialmente a inveja. Aquilo mexeu muito comigo, pela primeira vez eu vi alguém reconhecer que tinha inveja. Tudo começou quando ela assumiu em um programa de televisão que tinha inveja. O tema da discussão era “defeitos que as pessoas não gostam de confessar”. Ela decidiu então mostrar esse seu lado horrível. Depois ela escreveu sobre isso para a revista que li. Hoje pensei muito sobre isso e resolvi escrever sobre coisas que não gosto de confessar, mas acredito que assim eu possa, de alguma maneira, “me curar” desse mal.

Acredito que a minha inveja nunca tenha sido violenta, a ponto de me fazer outra pessoa sofrer amargamente. Mas me machucou muito. Inúmeras vezes na minha adolescência, ou até mesmo hoje, me pegava pensando com amargura: “Por que fulana e não eu?”. “Por que fulano tem e eu não?”. “Puxa, eu também quero, eu mereço!”

Quando era adolescente, morria de inveja das minhas amigas que podiam sair e chegar de madrugada (o que seria, na época, qualquer coisa depois da meia-noite). Eu sofria tanto por meu pai não me deixar sair ou toda vez que queria ter que enfrentar uma guerra, que desisti de sair com as amigas. Então, quando alguém me perguntava por que eu não saia eu disparava: “Não gosto de sair, prefiro ficar em casa lendo um livro ou assistindo a um filme”. Claro que essa não era a verdade. A mesma coisa foi quando elas faziam suas viagens para Disney ou seus books de 15 anos. Como eu sofri nessa época. Sentia-me a mais excluída da face da Terra. Dizia, me lembro, que antes de viajar para outro país queria conhecer o Brasil e que book era coisa de menina fresca – dinheiro jogado fora.

Na faculdade, morria de inveja de quem não estudava, não freqüentava as aulas e ia bem nas provas. Eu assistia a todas as aulas, fazia mil anotações, enchia cadernos e blocos com cada respiração dos professores. Depois estudava dias a fio para tirar as mesmas notas que muitos que passaram metade do curso enchendo a cara no bar da frente da faculdade. Como me incomodava alguém ser capaz de fazer o que eu não podia.

Depois da faculdade me torturei inúmeras vezes quando minhas amigas começaram a se casar. Aquela conversa de festa, decoração, viagens e presentes me viravam o estômago. Eu tentava desvalorizar o que não estava ao meu alcance: “Onde já se viu meninas se casando tão novas?! Eu quero aproveitar muito minha vida”. Convencia-me de que não passavam de um bando de crianças iludidas e fúteis. Como eu invejava casais insuportavelmente felizes!

Depois, ao cair no mercado de trabalho, uma derrota atrás da outra, um emprego medíocre depois do outro, só decepções depois de anos se preparando para ser alguém, lá estava eu com minhas idéias. Consumia-me em pensamentos do tipo “ela está saindo em férias para a Europa, do emprego da melhor emissora do Estado e eu estou morando de favor no apartamento de um quarto de um amigo que mal conheço”. “Ele está trocando de carro pela terceira vez desde que saiu da faculdade, um ano antes de mim, e eu estou indo trabalhar a pé e debaixo de chuva”. Então eu tentava transformar todo aquele sentimento em orgulho: “Imagine, ela nunca vai saber o que é batalhar por alguma coisa”. Ou: “Eu não gosto mesmo de dirigir. Ninguém merece enfrentar esse trânsito de Curitiba”.

E quando as amigas ou conhecidas começam a ter filhos?! Que pavor! Lá estou eu com minhas estratégias: “Ainda bem que eu nunca tive filhos. Não tenho paciência com crianças e muito menos preparo psicológico pra ser mãe. Quero crescer na vida profissional (que anda um fracasso) primeiro e depois vou pensar nisso”. Como me incomoda alguém ter o que eu não posso ter.

Inveja é realmente um sentimento péssimo. Como disse a Soninha no artigo dela, também não acredito que a maldita inveja faça mal a quem é objeto dela, aquela coisa de “mau-olhado”. Faz, sim, mal ao sujeito da inveja. No caso, a mim mesma. Vai corroendo por dentro, machuca, dói. Até ler esse artigo eu nunca tinha tido noção de como ela é incômoda, de como é difícil reconhecer sua presença. Ninguém teme ao dizer que tem ciúmes ou raiva de alguém. Já a inveja… Quem quer dizer que tem?

Tenho que reconhecer que esse “sentimento de injustiça” muitas vezes de joga no chão, como hoje. Não é fácil. A Soninha começou a brincar com ela. Para ela confessar a dor-de-cotovelo a torna menos latejante. Eu ainda estou dando os primeiros golpes contra esse emaranhado de emoções que misturam o sentimento de fracasso e inveja. Será que alguém é completamente feliz? Será que alguém é completamente livre de inveja? Que atire a primeira pedra quem nunca sentiu inveja. (14/08/2007)

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