i can see

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“Nós aprendemos aos poucos”, pensava. Com os olhos fixos no além, café na xícara queimando por entre as mãos, debruçada sobre a janela, olhava para o nada e pensava sobre coisas indefinidas. Com o rosto inundado de uma serenidade incomum, já podia dizer pra si mesma, com certo orgulho, que conhecia um pouco do mundo. Não, ela não falava de países, cidades, culturas. Referia-se ao mundo que existe logo ali, dentro das pessoas. Pensava nas inúmeras vezes que tanta gente a olhou sem vê-la, em tantas ocasiões que a tocaram sem possuí-la. Ela sabia como ninguém que, mesmo longe, as pessoas podem enxergar o outro e estar ali também, no mundo delas. Porque o ver e o sentir vão além do mundo físico, depende de alma, de coração.

Debruçada na janela com seu agasalho Adidas, xícara de café já frio nas mãos e refugiada em seu mundo paralelo, poderia refletir sobre o tempo, a umidade baixa do ar, o frio. Mas não, tudo que conseguiu foi pensar em como podia chorar toda vez que ouvia U2. Desejava profundamente que viver fosse tão belo e intenso como ouvir Bono Vox cantando para uma multidão enlouquecida. Pois ela sabia, como ninguém, que memórias deliciosas e trilha-sonora-pop-rock-pra-chorar eram duas coisas inseparáveis e necessárias. Já o silêncio e distância não combinavam com sua biologia, mas aprendeu a conviver pacificamente com eles.

Com os olhos fixos no além, xícara vazia nas mãos, debruçada sobre a janela, ela olhava para o céu azul de julho, pensando no ontem, no amanhã, no agora, em músicas, filmes, vinhos, pernas, mãos, corpo, rosto, maxilar, dentes, cabelos, pele, pescoço, poros, pelos, braços, abraços, mãos, costas, músculos, movimentos, respiração, afagos, suspiros, gostos, calor, desejo, e, quem sabe… Quem sabe ir até Seattle, Tókio, Itália ou Amparo. Que seja. A verdade é que “nós aprendemos aos poucos”, até o momento em que não existamos mais aqui, agora, ontem, um pouco antes, durante ou depois, não importa — mas sempre, sempre haverá a música, os filmes, as palavras, e o querer-ver-e-sentir-você-infinitamente… pra sempre. (05/07/2008)

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