Querido D.

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10/06/2008

Hoje tive uma vontade absurda de te escrever coisas assim, obscenas, impronunciáveis. Foi na fila do supermercado que pensei em te falar coisas que te fizessem sorrir um sorriso cínico, perturbador, tentador. Mas eu não consigo, devo ser careta demais pra essas coisas. Às vezes tento, tento dizer coisas, muitas coisas e ao mesmo tempo tenho a impressão que tudo, tudo o que digo e faço é inútil, totalmente inútil, em vão. Eu sempre tenho esse medo, essa insegurança de não agradar, de ser brega, démodé. Estou sempre bleeding. Anyway, a verdade é que ando muito dispersiva, tenho pensado quase sempre em você, sobre esse magnetismo das pessoas que por algum tempo cruzam meu caminho e por muito tempo descruzam e por nenhum tempo voltam a cruzar. E fica sempre aquele apego vazio, inútil, apego burro, apego insuportável de viver sem essas pessoas (I have a hole in my soul), e eu não queria que você fosse mais uma. Desde sempre me pergunto por que quem mais amamos tem que partir – se recuperar depois é quase impossível. Afetos, momentos – acumulo tudo na alma e isso tem me deixado assim, descontínua. Essa melancolia dilacerada no ar é doloridíssima.

Let me tell you, esses dias cheguei a sonhar com você. Era tudo tão bonito, você viajando pela Itália, muito vinho, tudo muito colorido, muito belo, muito saboroso, enfeitiçante. Você estava tão feliz, só risos. Teu sorriso, ah, teu sorriso era inspirado, doido, lindo, insuportavelmente interessante, como sempre. Então acordei com uma vontade louca de te ligar pra saber como anda tua saúde, teu trabalho, teu sono, tua insônia, teu pai, teu livro, tua cirurgia. Pra dizer que acordar sem alguém ao meu lado dói tanto, que converso muito com você mentalmente, que morro de saudades – uma saudade louca de você, do seu corpo imperfeitamente perfeito, do nosso universo paralelo. CARALHO! Sorry – eu continuo falando palavrões (muitos e sujos), indo à academia (o espelho é cada dia mais cruel), ao banco (o salário está defasado), ao supermercado (a comida está muito cara), andando a pé (meu joelho direito dói tanto), enviando e-mails (poucos), viajando de ônibus (quase uma tortura), baixando músicas (uma necessidade), pensando em você (um vício).

OH GOD! Isso tudo tem me cansado, sabe? Essa aflição insana de sobreviver – quero mais que isso. Todos os dias eu me pergunto: “Meu Deus, o que é que eu estou fazendo aqui? Só e sem rumo, estagnada, pra que tanta dor, distanciamentos, desilusões, por que tudo é tão difícil?”. I’m exhausted, viver só por viver me consome, eu preciso de algo mais belo nesse “viver”. E a tua imagem, tuas fotos, tua lembrança e nossas músicas não me confortam, muito pelo contrário, me doem no estômago, it sucks. É uma sensação tão estranha, como se eu estivesse presa dentro de mim mesma e isso vai dando certa aflição. SERIOUSLY, ando com a vida meio suspensa. Tem dia que não existem pensamentos, emoções, fome ou rotina – só dor. Como dizia o RR: “É uma dor que dói no peito”. E quando olho ao redor, e todos parecem estar bem, eu me sinto assim, obrigada a “estar bem”.

Mas eu me pergunto: o que é estar bem meu bem? Tell me: o que é estar bem? A verdade é que todos vestem delicadas e discretas máscaras (como aquelas do Carnaval de Veneza), com aquele ar de hipocrisia – “fake plastic people”. OK, assumo, isso tudo parece meio paranóico, mas é sincero e comovido o que te escrevo. Sabe, hoje tive essa vontade maluca de te dizer coisas assim, obscenas, impronunciáveis, algo indecente, imoral, desbocado – mas não rolou. Sorry pelo silêncio. Eu sei que você iria me dizer que não se pode ser assim, tão infeliz, que não se pode desistir tão cedo: de amar, de sonhar, de ter esperança, que é proibido ser assim como sou, que é preciso “walk on”. I know all this. Mas não posso, posso mas não quero, posso mas não devo, posso mas não consigo. But I promise: um dia hei de.

Anyway. Fico por aqui.

Send news. Love, love, lots of love from your P.

PS – Escrevi esta “carta” ouvindo “Luz dos Olhos”, do Nando Reis.

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Uma resposta to “Querido D.”

  1. maionesetrip Says:

    Meu segundo texto favorito. Amo.

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