something else

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Pela janela, do lado de fora, passava-se de tudo: pessoas, cidades, placas, carros, casas, ruas, árvores, pedágios, acidentes, congestionamentos. Mas a única coisa que ela conseguia ver era um céu resplandecente de fim de outono do lado de fora. Cochilava por um tempo e logo abria os olhos, e isso era a única coisa que via: um céu resplandecente de fim de outono do lado de fora – momentaneamente serena, porque não havia outro jeito, se tudo já havia sido tentado, paciência. ‘Ainda não foi desta vez’, matutava. Do lado de dentro, apenas um silêncio. Aqueles silêncios de salas espera, elevadores, funerais, despedidas – sempre teve medo do silêncio que fica depois de coisas mal acabadas, deixando a vida delicada demais, pesadamente delicada e silenciosa.

Ela sabe que é preciso muita paciência pra aprender a se movimentar dentro do silêncio do tempo, sem aquela sensação de amargura, de fracasso, de perda, de ‘pronto-acabô’. Por alguns momentos sentia como se houvesse assim, uma espécie de esperança, alguma possibilidade de ser feliz – o que era quase obsceno, pois sempre viveu como se tivesse sempre a obrigação de ter sido ou tentado ser outra pessoa, com atitudes e sentimentos totalmente contrários aos dela. E aos poucos começava a perceber que a dor existia, que uma hora ela sempre aparece e parece que nunca mais vai embora.

Viajar, esquecer, romper os laços, talvez amar. Queimar os documentos, sair pelo mundo com uma mochila sem deixar endereço em busca de si mesmo no melhor estilo ‘Into the Wild’ – ela tem assim, uma certa u-r-g-ê-n-c-i-a em substituir o que foi perdido – porque não é capaz de deixar as coisas irem acontecendo. U-r-g-ê-n-c-i-a de reinventar cada encontro e apagar todos os desencontros, de vislumbrar o amor, as coisas simples, de viver com toda a sua perfeita e inconstante humanidade exposta sem se preocupar com o mundo lá fora. Ela tem u-r-g-ê-n-c-i-a no olhar, porque sente que a existência é meiga, bela, porém sofrida e volátil. Ela ri de si mesma – poucos são capazes de rir de si mesmos –, da sua personalidade melancólica-sentimentalóide, da sua busca incessante por pessoas com ‘something else’, e dessa aflição de sempre querer muito o que não se pode ter.

Enquanto olhava pela janela, do lado de fora – onde passava-se de tudo – , do lado de dentro ela fazia uma oração: ‘Deus, faça com que as saudades acabem, que apaixonados se encontrem, que os e-mails cheguem , que telefones toquem, que as panelas dos miseráveis se encham, que os hospitais de esvaziem, que as crianças perdidas tenham casa, que os cãezinhos perdidos tenham donos, que toda perda material ou sentimental seja restituída com doses cavalares de alegria, que todo erro seja perdoado, que haja paz, que a música sempre exista e que exista sempre alguém disposto a amar incondicionalmente. Deus, faça isso com u-r-g-ê-n-c-i-a, é o que te peço, amém.’

Silêncio. Ela cochilou outra vez. Ao despertar, olhou pela janela e do lado de fora, o ponto de chegada. Calada, olhava para si mesma sem dizer nada, tentando não olhar para as circunstâncias, tentando acreditar que essa u-r-g-ê-n-c-i-a de viver logo tudo o que tivesse a viver não era um defeito, mas uma maneira de não deixar sobrar tempo para pensar nas dores desse viver, nas dores existir sozinha. Nunca pediu mais do que a vida lhe pudesse dar, assim como nunca ofereceu mais do que dispusesse – teve sempre plena consciência da sua humanidade. Parada atrás da janela, ela tem medo, se comove, mas se move. Decide então descer. Aos poucos vai caminhando, aos poucos começa a perceber que a dor existe, que uma hora ela sempre aparece, mas que um dia precisa ir embora. E do lado de fora ela segue caminhando sob o céu resplandecente de fim de outono – sem dever absolutamente nada a ninguém, sem exigências, sem solicitações, mas com uma enorme admiração por si mesma – pois sabe que o que tem, é seu.  (19/06/2008)

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