when november comes

bye4

Ela só sabe que existe aquela coisa, talvez seja uma dor, um vazio, algo que fica latejando, uma fome, certa vontade louca de fugir. Isso preocupa, apavora, quebranta. É aquilo que sempre chega quando fica claro que algo foi perdido pelo caminho. Não é capaz de deixar as coisas irem acontecendo. No fundo, queria mesmo era reinventar encontros e apagar todos os abandonos. Bem no fundo, só queria que entendessem que sua vida consiste em não agir como se deve agir; em não fazer o que esperam que faça. E de tanto buscar o que não podia ter, surgiu o que não esperava: o in-di-zí-vel. Quanto mais insistia, desistia. Cansou então de esperar que o inesperado acontecesse, desisitiu diante do medo da recusa que quase sempre via em pequenos gestos. Sabia melhor do que ninguém que, além do que não tinha, não lhe restava nada. Estava pronta para partir, quando o telefone tocou. Então uma voz que não ouvia há muito tempo, tanto tempo, que mesmo assim não poderia esquecê-la. Era uma voz que dizia: “vá fazer análise, natação, massoterapia, psicologia, gastronomia, saia dessa obsessão de querer fugir pra que alguém te leve pra casa”. Ela não conseguiu responder, estava engasgada com a vida, sufocada pela lembrança do que não aconteceu. E num profundo desequilíbrio, com meio sorriso preso nos lábios, decidiu partir. Retirou-se com um cheiro de roupa suja, suor e solidão. Por muito tempo fez-de-conta que tudo era um faz-de-conta, e fez-de-conta que era feliz. Viveu profundamente, como sempre, porque não sabia viver de outro modo. (06/10/2008)

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