celebrando a perda

 
tudo começa sempre com duas pessoas, duas idéias, duas opiniões, duas visões, dois corpos, duas mãos, duas bocas e de repente tudo se torna uma coisa só. quanto mais me misturava a você, mais distante ficava do meu referencial e me modificava, e aprendia, e me perdia. sempre fui muito boa na tentativa de modificar o que penso sobre o mundo e sobre as pessoas para me sentir melhor. mas desta vez quem se modificou foi eu. algumas pessoas querem sempre o melhor. eu sempre busquei algo bom o suficiente – é claro que esse algo não poderia ser medíocre. uma coisa pode ser muito boa sem precisar ser a melhor. quando conheci você, finalmente encontrei algo suficientemente bom, então parei de ficar procurando. aprendi que ter algo bom o suficiente é, quase sempre, bom o suficiente. porque com o tempo entendi que não vale à pena procurar o melhor e o melhor do melhor. porque mesmo que um dia você encontre, vai acabar insatisfeito, acredite.

difícil não é perder o melhor do melhor, difícil mesmo é viver sem aquilo que escolhemos como bom e suficiente pra nossa vida, mesmo com todas as diferenças e dificuldades. escolhi amar o incomum, o complexo, o insano, o proibido. pois não há troca sem diferença – que as diferenças sejam sempre celebradas. sou uma desamparada por natureza. todas as vezes que me apaixonei quis acreditar que o outro me preenchia e que eu preenchia o outro também. a grande verdade é que sempre estive tentando administrar meu desamparo. mas depois de tantos adeuses e desamparos e de perder o que havia escolhido como bom e suficiente para minha vida, me tornei uma pessoa menos propensa a acreditar que possui todas as verdades. eu sei que muitas vezes estive errada sobre algo, e você também. talvez você pudesse ter me corrigido, e eu a você. daí talvez poderíamos ter seguido juntos. talvez.

saiba que você agregou um valor inestimável à minha vida, me fez enxergar que podemos (e devemos) sempre ir além da superficialidade. então você me perguntou um dia o que eu tinha visto em você, como pude me tornar tão devota a uma pessoa tão comum? não sei. só sei que as pessoas se conectam, depois começam a organizar esse sistema, então um dia elas concordam, e discutem, e amam, e observam, e discordam, e acrescentam, e separam, e subtraem, e no final fica um vazio. a felicidade talvez seja ter que viver essas angústias, essa luta toda e, num determinado momento – entre um tropeço e outro – dizer: “pois é, sobrevivi e, por isso, venci, mesmo perdendo”. a única coisa que não me abandonou até hoje, foi a esperança. é preciso coragem para viver a crise, aceitar a perda desse comum incomum. e isso dói, lateja. não tem a ver com uma separação matrimonial, sexual, procriação ou algo do gênero. é uma separação de almas. mas a minha se acostumou a conviver com a sua: sem amarras, sem força, sem raivas, sem mágoas. na minha alma, na minha memória – já tão desgastadas – e no meu coração – tão cheio de band-aids e curativos – você ainda ocupa um dos lugares mais bonitos.

“Metade de mim agora é assim: de um lado a poesia, o verbo, a saudade. Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim. E o fim é belo incerto… depende de como você vê o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só. Só enquanto eu respirar vou me lembrar de você.”

~ O  Teatro Mágico ~

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