Archive for abril \30\UTC 2009

oh let’s go back to the start

abril 30, 2009

Passei dias sem digitar uma palavra que fosse, queria escrever, mas eram tantas coisas sobre as quais precisava falar que desisti repetidas vezes. Hoje sentei-me diante do computador para tentar escrever sobre:

a dor dos desencontros – o desajuste dos relacionamentos – a irracionalidade do comportamento humano – o conflito entre a ânsia de vida e a mesmice do cotidiano – um mundo de silêncios – as tentativas de recomposição de identidades fraturadas – os mistérios dessa complexa existência – problemas, depressões, fragilidades, desencantos que causam essa sofrência e denunciam um vazio infinito – a incerteza da segurança – o desejo de uma felicidade iluminada pelo amor – sorrisos aprisionados – o excesso de doçura da primeira vez – os dias que passaram – as infinitas despedidas – as pessoas que passaram e para sempre se perderam – a fome de amor – chorar por fora – chorar por dentro – o sentido secreto das coisas da vida – gritar muda – conseguir o impossível – faltas e ausências – a dura falta de algo que amenize a dor – aquelas quedas que constroem a nossa vida – os “apesar de” cheios de angústia e desentendimento – ser suave e selvagem – o amor pelo mundo que me transcende – a fatalidade da alegria – ficar pronta para alguém – olhares sonhadores, abstratos e vazios – sentimentos urgentes – a dor de existir – o enorme esforço de se sobrepor a si mesmo – essa pressa que corre por dentro – alguma coisa que precisava saber e experimentar – o que não estava sabendo e nunca soubera – conhecer a dor de não ver futuro e continuar existindo – gostar de ver as pessoas sendo – poder gastar algum tempo sendo, sem perder a vida toda.

Hoje sentei-me diante do computador para tentar escrever sobre todas essas e outras coisas, mas há um grande silêncio dentro de mim e esse silêncio ironicamente tem sido a fonte das minhas palavras. E esse vazio de palavras simplesmente traduz o desejo que cada dia não seja mais comum, mas extraordinário e indizível como a voz de uma pessoa calada. Queria poder escrever de forma direta sobre tudo que se pensa ou se sonha, exercitar a minha alma e a sua. Transmitir não sei o que – que por alguma decisão tão profunda os motivos me escaparam. Transformou-se em algo indizível em palavras escritas ou faladas.

Sim, é uma espécie de tristeza, mas não uma tristeza difícil, algo como uma tristeza de saudade (eu sou a saudade). Melhor seja não escrever nada. Li alguma vez em algum lugar que é aconselhável “não indagar o mistério para não trair o milagre”, calar-se para não se perder em palavras. Mas acho que em algum momento eu me perdi e agora é hora de me redescobrir. A redescoberta de si é de uma tristeza bonita. Hoje assumi a responsabilidade de ser eu mesma. Nesse mundo de infinitas opções, parece que – finalmente –  fiz a melhor escolha.

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eu ando muito Clarice

abril 21, 2009

vicky2

“Não temos amado,

acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.

 Não nos temos

entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos  evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca  falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.

Não temos

adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.” (Clarice Lispector)

like a cup of coffee

abril 19, 2009

“… uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.  Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteiro, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”  

(Clarice Lispector)

life on mars?

abril 14, 2009

Vai passar. Respire-respire-respire. Sinceramente… descobrir que a goiaba-com-queijo era na verdade uma-goiaba-bichada é pior que encontrar formiga no mel. Mas não tem jeito, pra avançar, tem que perder a ilusão. A lembrança quase sempre serve para encobrir a perda, mas, às vezes, é necessário esquecer. Existe uma teoria que-diz-que as coisas sempre acontecem antes de acontecer. No desconhecido de si mesmo, no desassossego da ausência de tudo e de todos quase sempre é possível identificar o começo-do-fim-das-coisas. Basta vasculhar aquela caixinha de interioridades para encontrar o silêncio que neutralizou os ruídos que permitiam uma visão mais autêntica dos fatos. Pensava que precisava do outro para crer em si mesma, senão se perderia no vácuo que havia dentro dela. Mas nunca conseguia sair daquela atmosfera de inconstância e desamparo, vivia atropelando os sonhos, domesticando as palavras em intermináveis perguntas, eternas filosofices – sabia muito bem como enfeitar a realidade.

Viveu uma série de faltas enquanto ansiava por uma identificação completa com o outro na sua tosca manifestação de vida, sem a proteção de máscaras sociais que encobrem o sentido de urgência que fica estampado na cara daqueles que vivem tentando disfarçar a ausência. Sentimentos desconhecidos nos atam a um mistério difícil de entender. Mas querer entender as coisas cansa. Quem indaga demais acaba incompleto. Para tudo o que se sente e deseja, o melhor é não tentar encontrar palavras para expressar o inexpressível. O silêncio talvez seja a forma mais direta de atingir a plenitude das coisas. É provável que as pessoas cresçam na dor, na tristeza e na perda… Mas o esquecimento é uma necessidade. Filtrar o passado ajuda a eliminar o que é doloroso demais, poupando-nos de ruminá-lo incessantemente. E assim, reaprender a respirar, a viver.

Saiba que cada ser é um fragmento, uma parte de algo, um-não-sei-o-que (não tem respostas prontas que exemplifique). Mas uma coisa é certa: todo mundo é um pouco triste e um pouco só, mesmo que a existência não se resuma a uma seqüência de aparecimentos e desaparecimentos. Porque existem certos laços que também acorrentam. Por isso a gente não se separa de nada sem dor, nem de pessoas, nem de lugares ou coisas. Por mais infelicidade que tudo isso nos traga, não conseguimos viver uma separação sem certa dose de sofrimento.  É necessário um passado que nos encoraje no futuro (melhor ter um passado infeliz do que não ter passado algum). A felicidade é um conceito oco, quem sabe seja crescer com menos medo do amanhã – não há respostas prontas. Mas vai passar. Respire-respire-respire. Vem cá, desmanche minha maquiagem, me dá sua língua, me dá seu ar. Existe tempo de sobra para cometermos mais erros, para nos perdermos. Tenho muito mais para errar. Transgredir os limites ainda me fascina. Amanhã vou acordar mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada, monogolando, com saudades-do-que-poderia-ter-sido-e-não-foi e morrendo de vontade de… roubar seu ar.

little stuff

abril 8, 2009

De vez em quando é bom viver como se a vida fosse um romance (não qualquer romance, porque tem muita gente que se diz “romântico”, mas não faz idéia do que seja uma atitude romântica) cheio de reviravoltas, tenso, complicado (porque não existe romance sem conflito), mas também regado de fascínio, beleza, sutileza e com uma medida certa de “surpresas”. O bom romântico sabe surpreender, com coisas simples, pequenos gestos, às vezes muito sutis – mas capazes de nos deixar com o coração na mão. É assim que eu me sinto todas as vezes que assisto (já perdi a conta) à esta cena: com-o-coração-na-mão.

( Hoje acordei com o coração na mão.)

irremediável

abril 1, 2009

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso às vezes é cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ‘estou contente outra vez’. Ou simplesmente ‘continuo’, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como ‘sempre’ ou ‘nunca’. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas…” (Caio F.)