epifania

o leitor

Sou avessa aos extremos e aos extremistas. Me permito discordar várias vezes dos outros e de mim mesma. No meio de infinitos rituais de adeuses que me meti, a explicação mais razoável que encontrei foi somente a sempre provável incerteza, uma espécie de perplexidade misturada a uma grande melancolia. Não estou mal… mas não estou bem… não sei. Onde foi parar aquela magia essencial de viver? De repente – de repente tudo parou: o telefone parou, os e-mails pararam, os amigos desapareceram, os sonhos morreram, a vida parou – e só o meu coração continua batendo tum-tum—-tum-tum. Às vezes quase sempre a melancolia me empalidece e uma saudade morna e incompreensível de épocas nunca vividas me consome pelas beiradas. Estou prestes a, de um momento para outro, me sentar no fio da calçada e sorrir meus sorrisos tristes, nada orgulhosos, pedindo sempre desculpas por não pertencer a este mundo. Hoje meu mundo não tem forças nem para gritar – apenas sussurra. Quanto ao futuro, o temo demasiadamente, porque conheço meus próprios limites. Estou em busca de alguém com uma simplicidade avassaladora para me perder nele com ele.

Alguém que aceite tanto sonos demorados quanto insônias insuportáveis. Que entenda certos comportamentos pessoais como parte da diversidade humana: logo uma pessoa tímida é simplesmente uma pessoa acanhada e outra extrovertida, uma pessoa comunicativa. Que saiba despertar com um beijo, que abra a janela para a luz do sol ou das estrelas. Alguém que diga coisas com voz firme ou silêncios demorados. Que aceite perfeitas imperfeições ao invés de buscar regular ou normalizar o outro com base em si mesmo. Alguém que queira somar e não dominar. Que entenda que o abraço é mais eficaz que uma intervenção “psicofármaca”. Que esteja disposto a amar a exceção ao invés de buscar sempre pelo padrão. Alguém que ainda saiba como se faz sexo-com-amor e queira dissolver o próprio eu no eu do outro. Que consiga despertar a vontade de ser feliz dentro da gente. Alguém que não me ensurdeça com monólogos entediantes e não apenas confirme as certezas, mas que exista para testá-las sem deixar muitas cicatrizes. Embora apenas suspeite de sua existência, procuro neste alguém algum critério para sustentar as minhas vagas e grandes esperanças.

“Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades – que não aconteciam, mas que importa? – a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.” (Caio F.)

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