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Efeito Urano

setembro 20, 2009

the things I left behind

Com a lucidez dos embriagados se reconheceram desde o primeiro minuto – apesar da incerteza intensificada dos dias que ainda estavam por vir. Eram apenas duas pessoas totalmente distantes quando ele perguntou se ela conhecia aquela música. Sem pensar disse: “mais ou menos”. Ele ficou calado por alguns segundos, como se sentisse ofendido por ela praticamente ignorar sua canção favorita. Não passavam de dois estranhos, em diferentes geografias, vivendo a vida porque se acorda todo o dia (não porque se têm sonhos), que de repente se esbarraram por meio de sons e palavras. Não é simples explicar o que aconteceu, pois só quem já descobriu uma certeza que só se tem uma vez na vida sabe como é terrivelmente bom e terrivelmente assustador amar o que foge dos olhos, do controle e da razão.

E pensar que quando aqueles dois perdidos se encontraram naquele lugar tão inesperado, tão cheio de pessoas que chegavam e partiam constantemente, ela estava tão “segura” em seu pequeno mundinho limitado, onde não existia espaço para encontros e desencontros e infinitas-esperas-de-não-sei-quem. Se identificaram pelas canções, pelo desalento, pelos doces e amargos do viver. O pavor do desconhecido terminou naquele instante: um pouco febril, de pranto contido e sorrisos metade-tímidos-metade-tristes. Ambos só conseguiam pensar que jamais imaginaram encontrar alguém que pudesse compreendê-los tão completamente. Não tinham nada, mas tinham tudo. Tinham um ao outro.

No ar pairava uma espécie de embriaguez quando um dia a canção de amor parou (the end – sem happy), ele pegou suas notas e partiu. Restou o silêncio e a amargura da espera que a fez pensar todos os dias em muitas coisas, como as emoções que tantas pessoas neste mundo por algum motivo deixavam de viver. E assim sofreu – além das suas – as aspirações de todas as partes e os desassossegos de todos os tempos. Muitas vezes depois pensou em quantas vezes aquela música sugeriu coisas que sabia que não podiam ser. Questionava se alguém saberia exatamente o que quer. Chorava por coisas que não foram nunca.

Hoje anda perdida em algum lugar, abraçada ao que sobrou de sua pseudo-alegria, morrendo por tudo, com o coração parado em algum lugar onde se viveu o que jamais imaginou ter vivido. Está abatida de tanto tentar entender a alma humana e as dores causadas por seres, ironicamente, humanos. Vive em busca daquelas mãos, braços, beijos e abraços. Procura em todos os lados por aquele sorriso que esconde um desejo de amar bem disfarçado – para que ninguém veja e se surpreenda com a grandeza do seu coração. Tudo o que aconteceu ainda cansa e a faz pensar se não seriam apenas cicatrizes que se levam quando se morre… Pois sabe bem que não passamos de uma simples lembrança na memória daqueles que vamos deixar por aqui.

“São muitas palavras, tantas quanto os fios de cabelo que caíram, quanto as rugas que ganhei, muito mais que os dentes que perdi. Esta coisa terrível de não ter ninguém para ouvir o meu grito. Esta coisa terrível de estar nesta ilha desde não sei quando. No começo eu esperava, que viesse alguém, um dia. Um avião, um navio, uma nave espacial. Não veio nada, não veio ninguém. Só este céu limpo, às vezes escuro, às vezes claro, mas sempre limpo, uma limpeza que continua além de qualquer coisa que esteja nele. Talvez tudo já tenha terminado e não exista ninguém mais para lá do mar mais longe que eu vejo.”

(Caio F. in: “O mar mais longe que eu vejo”)

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Inefável

setembro 6, 2009

brilho-eterno03

Depois de entrar por aquela porta a vontade de chorar era imensa, pois tinha desaprendido como era estar assim entre dois braços – mesmo sabendo que parte da sua alegria era triste. Inábil mas carinhosa, abraçou-o desajeitada, não era hábito essas coisas raras como contatos, afagos e rapidamente se afundou tonta naquele cheiro tão familiar.  O cheiro era a linguagem que ela melhor usava para se comunicar quando se jogava assim nessa espécie de roda-gigante. Sentia algo que não podia explicar e então tudo começava a rodar em silêncio. Essa ausência de palavras faladas traduzia algo como:  que-saudade-que-bom-rever-você-depois-desse-hiato-torturante ou qualquer coisa assim. Mas parte dela acabava ficando sempre do lado de fora, parada, sem saber o que dizer, sem conseguir adivinhar como esse passeio iria acabar.

Acontece assim quando você sai de um lugar que já deixou de ser de alguma maneira seu e vai morar noutro canto, que ainda não começou a ser seu – e talvez nunca comece. Ela ficou meio tonta quando pensava que não poderia ficar e que também não queria – partir. Se sentiu como um daqueles acrobatas de circo que andam numa corda bamba que de repente arrebenta, daí a pessoa fica lá, suspensa no ar, com um vazio embaixo dos pés. Dá para entender? E essa não-continuação era a única espécie de continuação que conhecia. Ficava sempre naquele espaço vazio entre a corda e o chão deixado pela ausência, embora pudesse preenchê-lo – esse espaço vazio sem ele – de muitas formas, de tantas maneiras, com atitudes ou palavras. Ou não-atitudes e não-palavras, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrou, muitas vezes, de ocupar seus dias, seus pensamentos, sua cama, seu computador, suas caminhadas, seus devaneios e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém a quem se adora dentro dela.

Então ela sofria porque sabia que para as pessoas que conhecia, sofrer além do considerado socialmente aceitável é deselegante, é de mau gosto e a transformava em caso de psiquiatria.  Mas ela conseguia ver beleza nessa dor, nesse espaço-entre-a-corda-e-o-chão.  Então à medida que vai envelhecendo, torna-se menos ansiosa em alcançar grandes vitórias na vida e sente a necessidade de cultivar o prazer nas pequenas vitórias do dia-a-dia, como se perder naquele cheiro conhecido que só sentia quando perdida entre aqueles dois únicos braços. Isso tudo certamente a fez prestar atenção nos pequenos prazeres, a recuperar a capacidade de se surpreender em meio à sua constante ânsia por SIGNIFICADO.

Sua vida tem sido uma interminável viagem em rodas-gigantes. Em cada volta acontecem mudanças. A mudança de fazer para o ser. Do saber para o valorizar. Da obsessão para a confiança. Do controle para a aceitação. “O que é, é” – pensou sem julgamentos, sem fuga, sem apego, sem aversão – ou pelo menos, em quantidade incrivelmente modesta. E no momento que percebeu que aqueles momentos raros de contatos  e afagos estavam acabando rapidamente se afundou tonta na tristeza de ter que se afastar daquele cheiro tão único e daquele corpo quente junto ao seu na madrugada. Teve então que partir novamente. Sozinha, sim, mas com uma consciência mais madura de seus pontos sensíveis e uma disposição de tratar com humor e carinho os pontos delicados. Sabia agora que precisava parar de filosofar sobre coisas para as quais não podia achar respostas – porque isso tudo quase arrancou seu coração. Então sua respiração parou por um instante e apagou seu EU, tudo de uma vez.

Em uma atidute de auto-julgamento decidiu que não iria mais sofrer – como se isso fosse possível, já que está longe de ser uma pessoa inteira e auto-suficiente . “Sou  apenas meia pessoa” – pensou então em voz alta com uma espécie de aceitação genuína e paciência melancólica. Sabia que sua vida  tinha um sabor único, perfeito da forma que fosse. Aprendeu então que somente quando se tornasse amiga de seu sofrimento, das suas doenças, da sua dor, conseguiria descobrir  verdadeiramente uma identidade maior e mais abrangente com o mundo onde vive. Sabia que não era mais vítima da vida, mas sua testemunha. Estava constantemente consciente não só dos seus apegos, mas também de suas limitações. Então, no momento de partir, de voltar àquele canto que ainda não era seu – e talvez nunca seria– um tumulto interno se instalou em seus mais diversos níveis emocionais e psicológicos. Dramaticamente iluminada pelo sol do começo da manhã, sentiu uma espécie de amor faminto. Chorou tentando descobrir por entre os aborrecimentos e decepções, por meio do desapego, por que nunca perdera essa mania de querer provar seu valor. Em meio a tantas perguntas sem respostas só tinha uma única coisa como certa em sua vida: “Se o amor não o despedaçar você não saberá o que é o amor”.

“…porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui.” (Caio Fernando Abreu)