Inefável

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Depois de entrar por aquela porta a vontade de chorar era imensa, pois tinha desaprendido como era estar assim entre dois braços – mesmo sabendo que parte da sua alegria era triste. Inábil mas carinhosa, abraçou-o desajeitada, não era hábito essas coisas raras como contatos, afagos e rapidamente se afundou tonta naquele cheiro tão familiar.  O cheiro era a linguagem que ela melhor usava para se comunicar quando se jogava assim nessa espécie de roda-gigante. Sentia algo que não podia explicar e então tudo começava a rodar em silêncio. Essa ausência de palavras faladas traduzia algo como:  que-saudade-que-bom-rever-você-depois-desse-hiato-torturante ou qualquer coisa assim. Mas parte dela acabava ficando sempre do lado de fora, parada, sem saber o que dizer, sem conseguir adivinhar como esse passeio iria acabar.

Acontece assim quando você sai de um lugar que já deixou de ser de alguma maneira seu e vai morar noutro canto, que ainda não começou a ser seu – e talvez nunca comece. Ela ficou meio tonta quando pensava que não poderia ficar e que também não queria – partir. Se sentiu como um daqueles acrobatas de circo que andam numa corda bamba que de repente arrebenta, daí a pessoa fica lá, suspensa no ar, com um vazio embaixo dos pés. Dá para entender? E essa não-continuação era a única espécie de continuação que conhecia. Ficava sempre naquele espaço vazio entre a corda e o chão deixado pela ausência, embora pudesse preenchê-lo – esse espaço vazio sem ele – de muitas formas, de tantas maneiras, com atitudes ou palavras. Ou não-atitudes e não-palavras, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrou, muitas vezes, de ocupar seus dias, seus pensamentos, sua cama, seu computador, suas caminhadas, seus devaneios e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém a quem se adora dentro dela.

Então ela sofria porque sabia que para as pessoas que conhecia, sofrer além do considerado socialmente aceitável é deselegante, é de mau gosto e a transformava em caso de psiquiatria.  Mas ela conseguia ver beleza nessa dor, nesse espaço-entre-a-corda-e-o-chão.  Então à medida que vai envelhecendo, torna-se menos ansiosa em alcançar grandes vitórias na vida e sente a necessidade de cultivar o prazer nas pequenas vitórias do dia-a-dia, como se perder naquele cheiro conhecido que só sentia quando perdida entre aqueles dois únicos braços. Isso tudo certamente a fez prestar atenção nos pequenos prazeres, a recuperar a capacidade de se surpreender em meio à sua constante ânsia por SIGNIFICADO.

Sua vida tem sido uma interminável viagem em rodas-gigantes. Em cada volta acontecem mudanças. A mudança de fazer para o ser. Do saber para o valorizar. Da obsessão para a confiança. Do controle para a aceitação. “O que é, é” – pensou sem julgamentos, sem fuga, sem apego, sem aversão – ou pelo menos, em quantidade incrivelmente modesta. E no momento que percebeu que aqueles momentos raros de contatos  e afagos estavam acabando rapidamente se afundou tonta na tristeza de ter que se afastar daquele cheiro tão único e daquele corpo quente junto ao seu na madrugada. Teve então que partir novamente. Sozinha, sim, mas com uma consciência mais madura de seus pontos sensíveis e uma disposição de tratar com humor e carinho os pontos delicados. Sabia agora que precisava parar de filosofar sobre coisas para as quais não podia achar respostas – porque isso tudo quase arrancou seu coração. Então sua respiração parou por um instante e apagou seu EU, tudo de uma vez.

Em uma atidute de auto-julgamento decidiu que não iria mais sofrer – como se isso fosse possível, já que está longe de ser uma pessoa inteira e auto-suficiente . “Sou  apenas meia pessoa” – pensou então em voz alta com uma espécie de aceitação genuína e paciência melancólica. Sabia que sua vida  tinha um sabor único, perfeito da forma que fosse. Aprendeu então que somente quando se tornasse amiga de seu sofrimento, das suas doenças, da sua dor, conseguiria descobrir  verdadeiramente uma identidade maior e mais abrangente com o mundo onde vive. Sabia que não era mais vítima da vida, mas sua testemunha. Estava constantemente consciente não só dos seus apegos, mas também de suas limitações. Então, no momento de partir, de voltar àquele canto que ainda não era seu – e talvez nunca seria– um tumulto interno se instalou em seus mais diversos níveis emocionais e psicológicos. Dramaticamente iluminada pelo sol do começo da manhã, sentiu uma espécie de amor faminto. Chorou tentando descobrir por entre os aborrecimentos e decepções, por meio do desapego, por que nunca perdera essa mania de querer provar seu valor. Em meio a tantas perguntas sem respostas só tinha uma única coisa como certa em sua vida: “Se o amor não o despedaçar você não saberá o que é o amor”.

“…porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui.” (Caio Fernando Abreu)

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