Efeito Urano

the things I left behind

Com a lucidez dos embriagados se reconheceram desde o primeiro minuto – apesar da incerteza intensificada dos dias que ainda estavam por vir. Eram apenas duas pessoas totalmente distantes quando ele perguntou se ela conhecia aquela música. Sem pensar disse: “mais ou menos”. Ele ficou calado por alguns segundos, como se sentisse ofendido por ela praticamente ignorar sua canção favorita. Não passavam de dois estranhos, em diferentes geografias, vivendo a vida porque se acorda todo o dia (não porque se têm sonhos), que de repente se esbarraram por meio de sons e palavras. Não é simples explicar o que aconteceu, pois só quem já descobriu uma certeza que só se tem uma vez na vida sabe como é terrivelmente bom e terrivelmente assustador amar o que foge dos olhos, do controle e da razão.

E pensar que quando aqueles dois perdidos se encontraram naquele lugar tão inesperado, tão cheio de pessoas que chegavam e partiam constantemente, ela estava tão “segura” em seu pequeno mundinho limitado, onde não existia espaço para encontros e desencontros e infinitas-esperas-de-não-sei-quem. Se identificaram pelas canções, pelo desalento, pelos doces e amargos do viver. O pavor do desconhecido terminou naquele instante: um pouco febril, de pranto contido e sorrisos metade-tímidos-metade-tristes. Ambos só conseguiam pensar que jamais imaginaram encontrar alguém que pudesse compreendê-los tão completamente. Não tinham nada, mas tinham tudo. Tinham um ao outro.

No ar pairava uma espécie de embriaguez quando um dia a canção de amor parou (the end – sem happy), ele pegou suas notas e partiu. Restou o silêncio e a amargura da espera que a fez pensar todos os dias em muitas coisas, como as emoções que tantas pessoas neste mundo por algum motivo deixavam de viver. E assim sofreu – além das suas – as aspirações de todas as partes e os desassossegos de todos os tempos. Muitas vezes depois pensou em quantas vezes aquela música sugeriu coisas que sabia que não podiam ser. Questionava se alguém saberia exatamente o que quer. Chorava por coisas que não foram nunca.

Hoje anda perdida em algum lugar, abraçada ao que sobrou de sua pseudo-alegria, morrendo por tudo, com o coração parado em algum lugar onde se viveu o que jamais imaginou ter vivido. Está abatida de tanto tentar entender a alma humana e as dores causadas por seres, ironicamente, humanos. Vive em busca daquelas mãos, braços, beijos e abraços. Procura em todos os lados por aquele sorriso que esconde um desejo de amar bem disfarçado – para que ninguém veja e se surpreenda com a grandeza do seu coração. Tudo o que aconteceu ainda cansa e a faz pensar se não seriam apenas cicatrizes que se levam quando se morre… Pois sabe bem que não passamos de uma simples lembrança na memória daqueles que vamos deixar por aqui.

“São muitas palavras, tantas quanto os fios de cabelo que caíram, quanto as rugas que ganhei, muito mais que os dentes que perdi. Esta coisa terrível de não ter ninguém para ouvir o meu grito. Esta coisa terrível de estar nesta ilha desde não sei quando. No começo eu esperava, que viesse alguém, um dia. Um avião, um navio, uma nave espacial. Não veio nada, não veio ninguém. Só este céu limpo, às vezes escuro, às vezes claro, mas sempre limpo, uma limpeza que continua além de qualquer coisa que esteja nele. Talvez tudo já tenha terminado e não exista ninguém mais para lá do mar mais longe que eu vejo.”

(Caio F. in: “O mar mais longe que eu vejo”)

Anúncios

Tags: ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: