Archive for outubro \24\UTC 2009

Vanitas vanitatum, omnia vanitatum

outubro 24, 2009

i have a dream

Ontem me deu vontade de chorar quando vi aqueles assuntos clichês na TV. Será que rezar adianta? Ao invés de darem um “boa noite”, poderiam começar os jornais assim: “Senhoras e senhores, bem-vindos ao mundo das frases prontas!”. Estou exagerando um pouco, eu sei, mas desde sempre é quase sempre assim. E isso sempre me incomodou – isso tem me incomodado muito.  Não chego nem perto de Martin Luther King but… I Have a Dream too! Sonho com um mundo sem clichês: sem pessoas, atitudes, datas comemorativas ou frases clichês. “Pense positivo” ou “Veja o lado bom das coisas” ou “Tudo vai passar” ou “Tenha paciência”. It sucks! Esse mundo anda cada vez mais uniformizado mesmo.

God, onde foi parar a singularidade das pessoas? Será que é possível ser você mesmo sem precisar repetir a vida de outras pessoas? Quero espaço pra viver algo meu, sem os clichês desta sociedade, da família, desse lugar-comum. Sou a inquietude em pessoa. Vivo latejando, correndo para diversos lugares, sempre em busca de fazer algo novo, quase sempre doendo muito por dentro. É difícil que alguém me entenda, mais difícil ainda é explicar o que acontece. Talvez antes eu me sentisse muito imortal. Mas em algum momento me dei conta de como essa vida é breve… Cada momento – mesmo dentro da rotina – deve ser novo, deve ser o mais bonito, o mais gostoso. Não acho que essa “urgência” seja boa, mas me mantém viva – é meu “kit salvação”. Saca? Conforto é bom, mas também pode ser estagnação.

Que fique claro: não sou melhor ou superior a ninguém. As aventuras que até aqui vivi estão longe se ser grandiosas. Quase nunca tive testemunhas ou reconhecimento público. Mas a minha singularidade é só minha. Tenho passado a vida correndo atrás dela. É uma-procura-de-algo-que-não-está-lá-e-que-espera-ser-encontrado-por-quem-está-procurado. Uma música, uma palavra, um filme, um trabalho, uma lembrança, uma pessoa, um livro, uma oração… Sigo em busca de qualquer coisa que não me deixe afundar nesse mar de atitudes clichês. Quem sabe algum dia aconteça algo brilhante, iluminando, amazing para que eu não lateje tanto e, quem sabe, essa chaga, essa ferida aberta, escondida feito úlcera se feche e leve embora esse medo de ser reduzido a um personagem-comum que vive escondido em lugares-comuns atrás de frases-feitas com medo do ridículo.  Assumo: sou ridiculamente eu mesma.

“Viver, essa difícil alegria. Viver é jogo, é risco. Quem joga pode ganhar ou perder. O começo da sabedoria consiste em aceitarmos que perder também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos algo extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar. Se sei perder, sei ganhar. Se não sei perder, não ganho nada, e terei sempre as mãos vazias. Quem não sabe perder, acumula ferrugem nos olhos, e se torna cego – cego de rancor. Quando a gente chega a aceitar, com verdadeira e profunda humildade, as regras do jogo existencial, viver se torna mais do que bom – se torna fascinante. Viver bem é consumir-se, é queimar os carvões do tempo que nos constitui. Somos feitos de tempo, e isso significa: somos passagem, somos movimento sem trégua, finitude. A cota de eternidade que nos cabe está encravada no tempo. É preciso garimpá-la, com incessante coragem, para que o gosto do seu ouro possa fulgir em nosso lábio. Se assim acontece, somos alegres e bons, e a nossa vida tem sentido”.

(Hélio Pellegrino a Clarice Lispector)

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Pra Você Guardei o Amor

outubro 2, 2009

Sabe, tenho tentado tanto, tanto, substituir minha obsessão pelo passado pelo desejo de esperar o que está por vir… Que músicas ouviremos? Quais filmes assistiremos? Sobre o que escreverão os poetas (será que eles ainda existirão?) e sobre o que discutirão os intelectuais? Como serão os quadros dos novos artistas? As crianças ainda serão crianças? Faltará mesmo água? Quais ídolos terão partido? Restará ainda quem fale de amor? Tenho tentado vislumbrar uma espécie de futuro menos individualista – mas livre de dependência afetiva. Todos os dias me esforço pra transformar essa “dor de viver” em algo evolutivo, construtivo – porque até aqui, tudo foi tão repetitivo, inútil, massacrante, um constante mais do mesmo que não me levou a lugar algum. Todos os dias quando me olho no espelho vejo uma adulta. Uma adulta de mãos vazias e coração pesado.

Às vezes parece que preciso ir contra tudo o que penso e sinto pra ser melhor do que tenho sido até aqui. Ok, confesso: não sei como resolver tudo isso. Mas tudo bem, (ainda) tô calma e ponderada, embora a vontade às vezes seja dizer meia dúzia de verdades pra meio mundo e sair pisando duro. Mas não vou fazer nenhuma loucura. Não tenho mais idade pra essas coisas. Pode ser pessimismo exacerbado meu, mas talvez a vida seja assim mesmo. A gente precisa ir se acostumando com o tempo que passa e vai fazendo as situações mudarem sempre. É a famosa “adaptação”. Tenho uma dificuldade imensa em me adaptar às coisas que não posso mudar. Por mais que eu tente escapar dessa grandessíssima idiota e imprestável angústia que vive comendo meu coração, não consigo escapar da terrível sensação de inutilidade diante de minhas angústias de estimação, aquela angústia antiga que por vezes extravasa. Nem sei mais o que sinto, não sei o que penso, nem o que sou. A única vontade que tenho hoje é de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria censurada. Mas, como já disse, não tenho mais idade pra essas coisas.

E no desalinho triste das minhas emoções confusas, das minhas tristezas feitas de cansaços e renúncias, do tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado me sussura que é preciso continuar, mesmo meio sem esperança, mesmo imersa em ilusões despedaçadas, coração taquicárdico e língua seca. Por isso tenho tentado, tanto, substituir minha obsessão pelo passado pelo desejo de esperar o que está por vir. Ah, como gostaria de ter para quem dizer coisas cheias de bonitezas… Pra contar que estou sempre recomeçando e recomeçando e recomeçando. E que esse recomeçar é sempre muito, muito dolorido. Não sei onde isso tudo me levará. Não sei nada. Não interrogo o mistério e nem procuro por respostas prontas, sonhos inúteis ou esperanças sem vestígios.

E nessa busca em substituir minha obsessão pelo passado hoje me peguei recordando para ter no que pensar, sem pensar que – embora digam que não quero me prender a nada, a nenhum lugar, a ninguém – a verdade é que ainda não consegui esquecer essas pessoas que apenas me fazem lamentar a tristeza de um dia tê-las tido para depois perdê-las. Por que tanta preocupação? De onde vem essa angústia que já nasce sabendo que vai morrer? Acho que de tanto lidar com a dor me transformei nela. Não, não é simples entender. É um raciocínio feito com as entranhas, que muitos repudiam. Por isso anseio em deixar a obsessão pelo passado e esquecer… de amar. Mas é ainda isso, e só isso, o que sinto.

Good Mourning, GoodBye

outubro 1, 2009

just breath just breath

De acordo com Elizabeth Kubler Ross, quando sofremos uma perda catastrófica ou chegamos ao ponto mais fundo do poço, todos nós passamos pelas cinco fases de luto. Nós entramos em negação porque o tormento é tão inimaginável que não conseguimos tomá-lo como verdadeiro. Temos raiva de todos, raiva de nós mesmos. Então nós barganhamos. Nós pleiteamos. Nós oferecemos tudo que temos em troca de mais uma chance. Quando a barganha falha e fica difícil demais sustentar a raiva, caímos em depressão, desespero, sentindo-nos desesperançosos. Até que finalmente percebemos que fizemos tudo que podíamos. Nós desistimos e então passamos à aceitação.

O dicionário define luto como um sofrimento mental intenso ou estresse por aflição ou perda; lamento agudo; arrependimento doloroso. Como cirurgiões, como cientistas, somos ensinados a aprendermos e confiarmos em livros – em definições, em definitivos. Mas na vida, definições exatas raramente se aplicam. Na vida, o luto pode parecer um monte de coisas que pouco se assemelham com lamento agudo.

Luto pode ser algo que todos nós tenhamos em comum, mas ele aparece diferente em cada um. E não só ficamos de luto por morte. Também pela vida. Pela perda. Pela mudança. E quando refletimos porque é tem que ser tão ruim às vezes, porque tem que doer tanto… o que temos que manter em mente é que isso pode mudar a qualquer hora. É assim que você se mantém vivo: quando dói a ponto de não dar pra respirar, é assim que você sobrevive.

Ao se lembrar que, de alguma maneira que seria impossível, você não se sentirá assim. Não vai doer tanto. O luto chega em seu próprio tempo para todos, à sua própria maneira. Então o melhor que podemos fazer – o que qualquer um pode fazer – é vivenciá-lo honestamente. A parte realmente chata, a pior parte do luto, é que você não consegue controlá-lo. O melhor que podemos fazer é tentar permitirmos sentí-lo quando chegar. E deixá-lo partir quando conseguirmos. A pior parte é o momento que você acha que você o superou, e ele recomeça novamente. E sempre, todas as vezes, ele te deixa sem ar.

Há cinco estágios de luto. Eles aparecem diferente em cada um, mas há sempre cinco.  Negação. Raiva. Barganha. Depressão.  Aceitação.

(from Grey’s Anatomy 6×01 -02)