Pra Você Guardei o Amor

Sabe, tenho tentado tanto, tanto, substituir minha obsessão pelo passado pelo desejo de esperar o que está por vir… Que músicas ouviremos? Quais filmes assistiremos? Sobre o que escreverão os poetas (será que eles ainda existirão?) e sobre o que discutirão os intelectuais? Como serão os quadros dos novos artistas? As crianças ainda serão crianças? Faltará mesmo água? Quais ídolos terão partido? Restará ainda quem fale de amor? Tenho tentado vislumbrar uma espécie de futuro menos individualista – mas livre de dependência afetiva. Todos os dias me esforço pra transformar essa “dor de viver” em algo evolutivo, construtivo – porque até aqui, tudo foi tão repetitivo, inútil, massacrante, um constante mais do mesmo que não me levou a lugar algum. Todos os dias quando me olho no espelho vejo uma adulta. Uma adulta de mãos vazias e coração pesado.

Às vezes parece que preciso ir contra tudo o que penso e sinto pra ser melhor do que tenho sido até aqui. Ok, confesso: não sei como resolver tudo isso. Mas tudo bem, (ainda) tô calma e ponderada, embora a vontade às vezes seja dizer meia dúzia de verdades pra meio mundo e sair pisando duro. Mas não vou fazer nenhuma loucura. Não tenho mais idade pra essas coisas. Pode ser pessimismo exacerbado meu, mas talvez a vida seja assim mesmo. A gente precisa ir se acostumando com o tempo que passa e vai fazendo as situações mudarem sempre. É a famosa “adaptação”. Tenho uma dificuldade imensa em me adaptar às coisas que não posso mudar. Por mais que eu tente escapar dessa grandessíssima idiota e imprestável angústia que vive comendo meu coração, não consigo escapar da terrível sensação de inutilidade diante de minhas angústias de estimação, aquela angústia antiga que por vezes extravasa. Nem sei mais o que sinto, não sei o que penso, nem o que sou. A única vontade que tenho hoje é de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria censurada. Mas, como já disse, não tenho mais idade pra essas coisas.

E no desalinho triste das minhas emoções confusas, das minhas tristezas feitas de cansaços e renúncias, do tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado me sussura que é preciso continuar, mesmo meio sem esperança, mesmo imersa em ilusões despedaçadas, coração taquicárdico e língua seca. Por isso tenho tentado, tanto, substituir minha obsessão pelo passado pelo desejo de esperar o que está por vir. Ah, como gostaria de ter para quem dizer coisas cheias de bonitezas… Pra contar que estou sempre recomeçando e recomeçando e recomeçando. E que esse recomeçar é sempre muito, muito dolorido. Não sei onde isso tudo me levará. Não sei nada. Não interrogo o mistério e nem procuro por respostas prontas, sonhos inúteis ou esperanças sem vestígios.

E nessa busca em substituir minha obsessão pelo passado hoje me peguei recordando para ter no que pensar, sem pensar que – embora digam que não quero me prender a nada, a nenhum lugar, a ninguém – a verdade é que ainda não consegui esquecer essas pessoas que apenas me fazem lamentar a tristeza de um dia tê-las tido para depois perdê-las. Por que tanta preocupação? De onde vem essa angústia que já nasce sabendo que vai morrer? Acho que de tanto lidar com a dor me transformei nela. Não, não é simples entender. É um raciocínio feito com as entranhas, que muitos repudiam. Por isso anseio em deixar a obsessão pelo passado e esquecer… de amar. Mas é ainda isso, e só isso, o que sinto.

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