Vanitas vanitatum, omnia vanitatum

i have a dream

Ontem me deu vontade de chorar quando vi aqueles assuntos clichês na TV. Será que rezar adianta? Ao invés de darem um “boa noite”, poderiam começar os jornais assim: “Senhoras e senhores, bem-vindos ao mundo das frases prontas!”. Estou exagerando um pouco, eu sei, mas desde sempre é quase sempre assim. E isso sempre me incomodou – isso tem me incomodado muito.  Não chego nem perto de Martin Luther King but… I Have a Dream too! Sonho com um mundo sem clichês: sem pessoas, atitudes, datas comemorativas ou frases clichês. “Pense positivo” ou “Veja o lado bom das coisas” ou “Tudo vai passar” ou “Tenha paciência”. It sucks! Esse mundo anda cada vez mais uniformizado mesmo.

God, onde foi parar a singularidade das pessoas? Será que é possível ser você mesmo sem precisar repetir a vida de outras pessoas? Quero espaço pra viver algo meu, sem os clichês desta sociedade, da família, desse lugar-comum. Sou a inquietude em pessoa. Vivo latejando, correndo para diversos lugares, sempre em busca de fazer algo novo, quase sempre doendo muito por dentro. É difícil que alguém me entenda, mais difícil ainda é explicar o que acontece. Talvez antes eu me sentisse muito imortal. Mas em algum momento me dei conta de como essa vida é breve… Cada momento – mesmo dentro da rotina – deve ser novo, deve ser o mais bonito, o mais gostoso. Não acho que essa “urgência” seja boa, mas me mantém viva – é meu “kit salvação”. Saca? Conforto é bom, mas também pode ser estagnação.

Que fique claro: não sou melhor ou superior a ninguém. As aventuras que até aqui vivi estão longe se ser grandiosas. Quase nunca tive testemunhas ou reconhecimento público. Mas a minha singularidade é só minha. Tenho passado a vida correndo atrás dela. É uma-procura-de-algo-que-não-está-lá-e-que-espera-ser-encontrado-por-quem-está-procurado. Uma música, uma palavra, um filme, um trabalho, uma lembrança, uma pessoa, um livro, uma oração… Sigo em busca de qualquer coisa que não me deixe afundar nesse mar de atitudes clichês. Quem sabe algum dia aconteça algo brilhante, iluminando, amazing para que eu não lateje tanto e, quem sabe, essa chaga, essa ferida aberta, escondida feito úlcera se feche e leve embora esse medo de ser reduzido a um personagem-comum que vive escondido em lugares-comuns atrás de frases-feitas com medo do ridículo.  Assumo: sou ridiculamente eu mesma.

“Viver, essa difícil alegria. Viver é jogo, é risco. Quem joga pode ganhar ou perder. O começo da sabedoria consiste em aceitarmos que perder também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos algo extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar. Se sei perder, sei ganhar. Se não sei perder, não ganho nada, e terei sempre as mãos vazias. Quem não sabe perder, acumula ferrugem nos olhos, e se torna cego – cego de rancor. Quando a gente chega a aceitar, com verdadeira e profunda humildade, as regras do jogo existencial, viver se torna mais do que bom – se torna fascinante. Viver bem é consumir-se, é queimar os carvões do tempo que nos constitui. Somos feitos de tempo, e isso significa: somos passagem, somos movimento sem trégua, finitude. A cota de eternidade que nos cabe está encravada no tempo. É preciso garimpá-la, com incessante coragem, para que o gosto do seu ouro possa fulgir em nosso lábio. Se assim acontece, somos alegres e bons, e a nossa vida tem sentido”.

(Hélio Pellegrino a Clarice Lispector)

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