Open my eyes

deixa eu entrar por favor

Durante toda minha infância enxerguei os livros como algo “sagrado”. Isso não significa que tinham algum significado importante pra minha educação. Muito pelo contrário. Eles eram quase que “proibidos” – semelhante a algum material de conteúdo obsceno talvez. Vou explicar. Até hoje na casa dos meus pais, no Paraná, temos uma estante, daquelas bem antigas, abarrotada de livros. Há anos eles seguem lá. Muitos intactos, a maioria desatualizada – imagino. Enciclopédias, dicionários ilustrados, alguma coisa de literatura, poesias, matemática…

Lembro-me quando meus pais estavam longe eu sempre dava um jeitinho de ir até lá explorar aquele armário (muitas vezes ficava trancado e eu tinha que procurar a chave). Era um ato de desobediência, quase uma rebeldia. Tirar aqueles livros de suas caixas intocadas me emocionava: quanta informação! Ficava maravilhada com os bichos das enciclopédias, adorava ler poesias…  Confesso que não me lembro de ter visto meu pai, que era bancário da Caixa Econômica, gastando algum tempo no deleite de qualquer uma daquelas obras. Talvez o fizesse escondido, não sei. E com a sensação de pisar em terreno proibido, tomava todo cuidado para não deixar pistas.

Aprendi a “ler os livros” não faz muito tempo. Fiz tudo errado até então. Na infância, os contemplava. No colégio, tudo se resumia a resumos – tinha que estudar para “passar de ano”, não para aprender. Na faculdade, eram “os xerox”:  universidade privada, custo alto, nem podia pensar em gastar com isso. Lamento não ter adquirido antes o amor pela leitura, de não ter aprendido a “gastar” tempo com os livros. Trocar as obras pelos “resumões” foi uma idéia muito péssima (pra não dizer muito burra). Hoje, quando compro um livro, ou devoro de uma vez ou levo uma vida para terminá-lo: sim, tenho preguiça. Tenho também o que chamam de “vista cansada” – é uma tristeza.  Pior de tudo, tenho ciúmes: são poucos os que consigo emprestar (qualquer semelhança com meu pai não é mera coincidência) –  prefiro presentear um amigo com um livro, comprar outro, a ter de aceitar a idéia de qualquer pessoa manuseando aquelas páginas “sagradas” com o menor descuido que seja. Egoísmo? Acho que não. Talvez seja mais uma dessas atitudes automáticas que herdamos de nossos pais.

Hoje olhei para meus livros esperando serem lidos e me lembrei da minha mãe sempre reclamando com meu pai: “vai doar essa velharia empoeirada pra alguma biblioteca, joga pra reciclagem…” Mal sabe ela que lá, naquele armário quase despencando, está um tesouro escondido, esperando ser lido, desejado, encontrado – mesmo que tarde. Há algum tempo descobri o amor pela palavra, pela escrita. Poderia ter crescido já apaixonada, quem sabe seria uma escritora das boas –  talvez. Por isso me emociono com coisas lindas que descubro que há tempos já estavam escritas. Então, constantemente, apanho ao tentar encontrar as palavras certas para encaixar em algum texto. E sofro, muito, para perdoar meu pai e sua estante, que não conseguem sentir remorso por terem me mantido privada daquilo que um dia mataria – não a minha fome de comida, mas minha fome de vida.

“… por mais que tentemos seguir em frente, por mais tentador que seja não olhar para trás, o passado sempre volta para nos infernizar. E como a história nos mostrou inúmeras vezes, quem esquece o passado está destinado a repeti-lo. Às vezes o passado é uma coisa que não conseguimos esquecer. E às vezes o passado é algo que faríamos tudo para esquecer. E, às vezes, descobrimos algo novo sobre o passado, que muda tudo o que sabemos sobre o presente.”

(Grey’s Anatomy 6.09 – “New History”)

Anúncios

Tags: , , ,

Uma resposta to “Open my eyes”

  1. Rogério Says:

    Seu texto é lindo e a história de sua relação com os livros é muito
    semelhante à minha. Só vim a me apaixonar pelos livros mais tarde.
    A diferença é que, antes do irmão mais velho se tornar leitor assíduo, na casa dos meus pais não havia um só livro. Não havia a estante sagrada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: