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Teimosia

março 25, 2010

Dia desses uma pessoa me perguntou sobre o que me atrai em um homem. “Complicado dizer”, respondi. Como explicar que nem sempre o mais agradável me encanta? E que nunca me interesso de cara pelo todo? Que me apego aos detalhes, às sutilezas, que quando me apaixono o peculiar assume o papel de protagonista e o todo transforma-se apenas em coadjuvante? Será que alguém entende que o pouco me transborda? Sou tortuosa demais para não causar espanto. Meus sonhos não são padronizados, domesticados ou manipulados. A verdade é que nem sonho mais, vivo acordada, atenta aos pequenos milagres, em busca de alguém que carregue algum mistério. O comum me mata, procuro pelas exceções.

O desalento me habita diante da ausência de alguém com uma leveza própria das pessoas que decidiram não mais complicar. Será que a teimosia compensa? E o inconformismo ainda é uma boa luta? Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminho. O que fazer quando nenhum paraíso parece convincente? Será tarde demais? Avanço às cegas com minhas decisões pseudo-inteligentes. Ninguém nunca me ensinou receita alguma, nem a você, suspeito, nem. Aprendemos com os tombos.

Vivo uma espécie de auto-exorcismo, com o fígado sempre sangrando a-bun-dan-te-men-te. Sim, o fígado. Pois diferente da maioria, não amo com o coração, amo com o fígado. Numa lembrança eternizante do que passou, mas que nunca terminou e nem acabará. Sou estrangeira neste mundo, quero um porto, uma caverna, um refúgio, um amor, um amigo-inimigo, um alguém com certa alegria-tristeza-dilacerante. Quero você! #prontofalei. Como escreveu Clarice certa vez “Juro que não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar”.

“Vou te dizer o que eu nunca te disse antes, talvez seja isso o que está faltando: ter dito. Se eu não disse, não foi por avareza de dizer, nem por minha mudez de barata que tem mais olhos que boca. Se eu não disse é porque não sabia que sabia — mas agora sei. Vou-te dizer que eu te amo. Sei que te disse isso antes, e que também era verdade quando te disse, mas é que só agora estou realmente dizendo.” (Clarice Lispector)

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