PRATINHO DO VASO (Fabrício Carpinejar)

dezembro 8, 2009
Arte de Marc Chagall

Fui numa floricultura comprar pratinhos de vasos.

Três pratos. De diferentes cores, de azulejo e barro.

O vendedor me considerou excêntrico pela modéstia do apelo. Procurou enfiar orquídeas olheira abaixo, recusei os arranjos coloridos. Como uma abelha que não larga a lâmpada pela obsessão do sol. Logo me dispensou para o caixa, viu de cara que não tinha potencial aquisitivo. Ele apressou a interrogação do “só isso” e logo fechou a encomenda.

Estamos tão consumistas que nos desculpamos por comprar pouco (ou nada). Imagina o atendente perder tempo com a gente? Gentileza hoje é comissão. Idêntica culpa diante do motorista de táxi com a corrida curta. Quase suplicamos por favor, se ele pode nos levar. Não há mais pobreza genuína no mundo, unicamente pobreza disfarçada. O cartão de crédito fantasiou a miséria.

Não receio pedir pouco. O pouco é que me basta. O pouquíssimo transborda.

Eu me sinto essencial lembrando o desnecessário. Ouvindo o suspiro dentro do vento.

Ninguém dá valor ao pratinho das plantas que racha na mudança de lugar e não é reparado, muito menos reposto. Eu não vivo sem eles. É como faltar talheres para um membro da família.

É o pratinho de vaso que me mantém acordado. Deslumbrado pela sua fugacidade. Porque amanhã terei que me lembrar novamente. E depois da amanhã. E sempre.

O amor é o que não lembramos para continuar lembrando. Como pedir ao filho escovar os dentes ou insistir que faça os temas. Todo dia será exaustivamente igual: é uma atenção renovada, não exclusiva. Uma dedicação nula. Uma devoção secreta que não traz fama e reconhecimento. Coisas simples que não podem ser contadas ou glorificadas durante a semana. Que são apagadas no mesmo momento do ato. Não irei ao bar proclamar aos colegas de que dobrei as calças antes de sair e organizei as camisas pela antiguidade.

É o que me põe apaixonado numa mulher: o pratinho do vaso. O que é sem graça, o que somente protege, mas que é confidente das raízes. O quanto ela é capaz de estar ao seu lado sem que necessite imortalidade. O quanto me torno observador das inutilidades. Falei inutilidades, pois é, não errei a digitação, quem ama conserva as inutilidades. Os interesseiros e ambiciosos guardarão as informações essenciais como nascimento e medidas. Veja se um homem a quer quando se interessa porque aquilo que não gera interesse. O fútil é o fundamental. No momento em que o desejo não descobre o que é importante e preserva tudo.

O pratinho do vaso do relacionamento está em saber o xampu que ela usa, o restaurante preferido, o doce da infância, sua mania de comer aipim com mel, o azeite (não é qualquer um), as perguntas que detesta ouvir, como ela gosta de amassar o travesseiro, de que modo escolhe as roupas: se nua ou já com a lingerie, quais os insetos que tem medo, o que não pode deixar de assistir na tevê, o drinque preferido, os amigos da choradeira, os amigos do riso, o que toma no café da manhã, qual a fruteira de sua confiança.

O pratinho do vaso é o que fica da tempestade. Não tinha como explicar ao vendedor. Ele é que conhece as flores.

(Amo esse texto. Me comove. O amor é assim, simples.) 
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It’s true.

novembro 24, 2009

“(…) I see all this potential, and I see squandering. God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don’t need. We’re the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War’s a spiritual war… our Great Depression is our lives. We’ve all been raised on television to believe that one day we’d all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won’t. And we’re slowly learning that fact. And we’re very, very pissed off.”

( Fight Club)

Open my eyes

novembro 15, 2009

deixa eu entrar por favor

Durante toda minha infância enxerguei os livros como algo “sagrado”. Isso não significa que tinham algum significado importante pra minha educação. Muito pelo contrário. Eles eram quase que “proibidos” – semelhante a algum material de conteúdo obsceno talvez. Vou explicar. Até hoje na casa dos meus pais, no Paraná, temos uma estante, daquelas bem antigas, abarrotada de livros. Há anos eles seguem lá. Muitos intactos, a maioria desatualizada – imagino. Enciclopédias, dicionários ilustrados, alguma coisa de literatura, poesias, matemática…

Lembro-me quando meus pais estavam longe eu sempre dava um jeitinho de ir até lá explorar aquele armário (muitas vezes ficava trancado e eu tinha que procurar a chave). Era um ato de desobediência, quase uma rebeldia. Tirar aqueles livros de suas caixas intocadas me emocionava: quanta informação! Ficava maravilhada com os bichos das enciclopédias, adorava ler poesias…  Confesso que não me lembro de ter visto meu pai, que era bancário da Caixa Econômica, gastando algum tempo no deleite de qualquer uma daquelas obras. Talvez o fizesse escondido, não sei. E com a sensação de pisar em terreno proibido, tomava todo cuidado para não deixar pistas.

Aprendi a “ler os livros” não faz muito tempo. Fiz tudo errado até então. Na infância, os contemplava. No colégio, tudo se resumia a resumos – tinha que estudar para “passar de ano”, não para aprender. Na faculdade, eram “os xerox”:  universidade privada, custo alto, nem podia pensar em gastar com isso. Lamento não ter adquirido antes o amor pela leitura, de não ter aprendido a “gastar” tempo com os livros. Trocar as obras pelos “resumões” foi uma idéia muito péssima (pra não dizer muito burra). Hoje, quando compro um livro, ou devoro de uma vez ou levo uma vida para terminá-lo: sim, tenho preguiça. Tenho também o que chamam de “vista cansada” – é uma tristeza.  Pior de tudo, tenho ciúmes: são poucos os que consigo emprestar (qualquer semelhança com meu pai não é mera coincidência) –  prefiro presentear um amigo com um livro, comprar outro, a ter de aceitar a idéia de qualquer pessoa manuseando aquelas páginas “sagradas” com o menor descuido que seja. Egoísmo? Acho que não. Talvez seja mais uma dessas atitudes automáticas que herdamos de nossos pais.

Hoje olhei para meus livros esperando serem lidos e me lembrei da minha mãe sempre reclamando com meu pai: “vai doar essa velharia empoeirada pra alguma biblioteca, joga pra reciclagem…” Mal sabe ela que lá, naquele armário quase despencando, está um tesouro escondido, esperando ser lido, desejado, encontrado – mesmo que tarde. Há algum tempo descobri o amor pela palavra, pela escrita. Poderia ter crescido já apaixonada, quem sabe seria uma escritora das boas –  talvez. Por isso me emociono com coisas lindas que descubro que há tempos já estavam escritas. Então, constantemente, apanho ao tentar encontrar as palavras certas para encaixar em algum texto. E sofro, muito, para perdoar meu pai e sua estante, que não conseguem sentir remorso por terem me mantido privada daquilo que um dia mataria – não a minha fome de comida, mas minha fome de vida.

“… por mais que tentemos seguir em frente, por mais tentador que seja não olhar para trás, o passado sempre volta para nos infernizar. E como a história nos mostrou inúmeras vezes, quem esquece o passado está destinado a repeti-lo. Às vezes o passado é uma coisa que não conseguimos esquecer. E às vezes o passado é algo que faríamos tudo para esquecer. E, às vezes, descobrimos algo novo sobre o passado, que muda tudo o que sabemos sobre o presente.”

(Grey’s Anatomy 6.09 – “New History”)

Polaroids desbotadas

novembro 7, 2009

polaroids desbotadas cópia

Deveria ser proibido ser esquecido. Não há nada mais triste do que não ser lembrado. Pior ainda é quando o esquecimento é de propósito. Não é simples explicar a frustração da espera por alguém que nunca vai chegar. Mesmo sabendo que tudo é muito previsível, o coração fica temporariamente interditado diante da constatação de que se é desimportante demais. Algumas vezes dói tanto, que nocauteada, a vontade é de engessar a mente até ela sarar, assim como se engessa braço quebrado.

Por que é tão difícil pra algumas pessoas dizer a verdade à queima roupa? Faço de conta que não me importo, mas demora a passar. A verdade é que eu não deveria me importar tanto com isso. Talvez, por fora, em primeira apresentação, todos nós sejamos rock’n’roll. Mas olhando por dentro, não passamos de um jazz – ou blues. Escrevendo, pensei que poderia expurgar essa sensação permanente de luta – mas ela insiste em não me deixar.

Qual o caminho para onde tudo acontece perfeito e nada dói nem ofega, numa eterna monotonia de paz? Minha companhia é o conflito, nunca a harmonia. O paraíso constantemente foge de nós, pessoas dispensáveis, que o inventamos – como muitas vezes eu inventei uma infinidade de motivos para esperá-lo. É doloroso ser esquecido, pior talvez seja esquecer. E quando eu esquecer tudo isso que transborda pelos poros, por favor: lembre-me apenas de não me lembrar. De nada mais.

When somethings broke,
I wanna put a bit of fixin on it
When somethings bored,
I wanna put a little exciting on it
If somethings low,
I wanna put a little high on it
When somethings lost,
I wanna fight to get it back again

(Pearl Jam – The Fixer)

Vanitas vanitatum, omnia vanitatum

outubro 24, 2009

i have a dream

Ontem me deu vontade de chorar quando vi aqueles assuntos clichês na TV. Será que rezar adianta? Ao invés de darem um “boa noite”, poderiam começar os jornais assim: “Senhoras e senhores, bem-vindos ao mundo das frases prontas!”. Estou exagerando um pouco, eu sei, mas desde sempre é quase sempre assim. E isso sempre me incomodou – isso tem me incomodado muito.  Não chego nem perto de Martin Luther King but… I Have a Dream too! Sonho com um mundo sem clichês: sem pessoas, atitudes, datas comemorativas ou frases clichês. “Pense positivo” ou “Veja o lado bom das coisas” ou “Tudo vai passar” ou “Tenha paciência”. It sucks! Esse mundo anda cada vez mais uniformizado mesmo.

God, onde foi parar a singularidade das pessoas? Será que é possível ser você mesmo sem precisar repetir a vida de outras pessoas? Quero espaço pra viver algo meu, sem os clichês desta sociedade, da família, desse lugar-comum. Sou a inquietude em pessoa. Vivo latejando, correndo para diversos lugares, sempre em busca de fazer algo novo, quase sempre doendo muito por dentro. É difícil que alguém me entenda, mais difícil ainda é explicar o que acontece. Talvez antes eu me sentisse muito imortal. Mas em algum momento me dei conta de como essa vida é breve… Cada momento – mesmo dentro da rotina – deve ser novo, deve ser o mais bonito, o mais gostoso. Não acho que essa “urgência” seja boa, mas me mantém viva – é meu “kit salvação”. Saca? Conforto é bom, mas também pode ser estagnação.

Que fique claro: não sou melhor ou superior a ninguém. As aventuras que até aqui vivi estão longe se ser grandiosas. Quase nunca tive testemunhas ou reconhecimento público. Mas a minha singularidade é só minha. Tenho passado a vida correndo atrás dela. É uma-procura-de-algo-que-não-está-lá-e-que-espera-ser-encontrado-por-quem-está-procurado. Uma música, uma palavra, um filme, um trabalho, uma lembrança, uma pessoa, um livro, uma oração… Sigo em busca de qualquer coisa que não me deixe afundar nesse mar de atitudes clichês. Quem sabe algum dia aconteça algo brilhante, iluminando, amazing para que eu não lateje tanto e, quem sabe, essa chaga, essa ferida aberta, escondida feito úlcera se feche e leve embora esse medo de ser reduzido a um personagem-comum que vive escondido em lugares-comuns atrás de frases-feitas com medo do ridículo.  Assumo: sou ridiculamente eu mesma.

“Viver, essa difícil alegria. Viver é jogo, é risco. Quem joga pode ganhar ou perder. O começo da sabedoria consiste em aceitarmos que perder também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos algo extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar. Se sei perder, sei ganhar. Se não sei perder, não ganho nada, e terei sempre as mãos vazias. Quem não sabe perder, acumula ferrugem nos olhos, e se torna cego – cego de rancor. Quando a gente chega a aceitar, com verdadeira e profunda humildade, as regras do jogo existencial, viver se torna mais do que bom – se torna fascinante. Viver bem é consumir-se, é queimar os carvões do tempo que nos constitui. Somos feitos de tempo, e isso significa: somos passagem, somos movimento sem trégua, finitude. A cota de eternidade que nos cabe está encravada no tempo. É preciso garimpá-la, com incessante coragem, para que o gosto do seu ouro possa fulgir em nosso lábio. Se assim acontece, somos alegres e bons, e a nossa vida tem sentido”.

(Hélio Pellegrino a Clarice Lispector)

Pra Você Guardei o Amor

outubro 2, 2009

Sabe, tenho tentado tanto, tanto, substituir minha obsessão pelo passado pelo desejo de esperar o que está por vir… Que músicas ouviremos? Quais filmes assistiremos? Sobre o que escreverão os poetas (será que eles ainda existirão?) e sobre o que discutirão os intelectuais? Como serão os quadros dos novos artistas? As crianças ainda serão crianças? Faltará mesmo água? Quais ídolos terão partido? Restará ainda quem fale de amor? Tenho tentado vislumbrar uma espécie de futuro menos individualista – mas livre de dependência afetiva. Todos os dias me esforço pra transformar essa “dor de viver” em algo evolutivo, construtivo – porque até aqui, tudo foi tão repetitivo, inútil, massacrante, um constante mais do mesmo que não me levou a lugar algum. Todos os dias quando me olho no espelho vejo uma adulta. Uma adulta de mãos vazias e coração pesado.

Às vezes parece que preciso ir contra tudo o que penso e sinto pra ser melhor do que tenho sido até aqui. Ok, confesso: não sei como resolver tudo isso. Mas tudo bem, (ainda) tô calma e ponderada, embora a vontade às vezes seja dizer meia dúzia de verdades pra meio mundo e sair pisando duro. Mas não vou fazer nenhuma loucura. Não tenho mais idade pra essas coisas. Pode ser pessimismo exacerbado meu, mas talvez a vida seja assim mesmo. A gente precisa ir se acostumando com o tempo que passa e vai fazendo as situações mudarem sempre. É a famosa “adaptação”. Tenho uma dificuldade imensa em me adaptar às coisas que não posso mudar. Por mais que eu tente escapar dessa grandessíssima idiota e imprestável angústia que vive comendo meu coração, não consigo escapar da terrível sensação de inutilidade diante de minhas angústias de estimação, aquela angústia antiga que por vezes extravasa. Nem sei mais o que sinto, não sei o que penso, nem o que sou. A única vontade que tenho hoje é de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria censurada. Mas, como já disse, não tenho mais idade pra essas coisas.

E no desalinho triste das minhas emoções confusas, das minhas tristezas feitas de cansaços e renúncias, do tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado me sussura que é preciso continuar, mesmo meio sem esperança, mesmo imersa em ilusões despedaçadas, coração taquicárdico e língua seca. Por isso tenho tentado, tanto, substituir minha obsessão pelo passado pelo desejo de esperar o que está por vir. Ah, como gostaria de ter para quem dizer coisas cheias de bonitezas… Pra contar que estou sempre recomeçando e recomeçando e recomeçando. E que esse recomeçar é sempre muito, muito dolorido. Não sei onde isso tudo me levará. Não sei nada. Não interrogo o mistério e nem procuro por respostas prontas, sonhos inúteis ou esperanças sem vestígios.

E nessa busca em substituir minha obsessão pelo passado hoje me peguei recordando para ter no que pensar, sem pensar que – embora digam que não quero me prender a nada, a nenhum lugar, a ninguém – a verdade é que ainda não consegui esquecer essas pessoas que apenas me fazem lamentar a tristeza de um dia tê-las tido para depois perdê-las. Por que tanta preocupação? De onde vem essa angústia que já nasce sabendo que vai morrer? Acho que de tanto lidar com a dor me transformei nela. Não, não é simples entender. É um raciocínio feito com as entranhas, que muitos repudiam. Por isso anseio em deixar a obsessão pelo passado e esquecer… de amar. Mas é ainda isso, e só isso, o que sinto.

Good Mourning, GoodBye

outubro 1, 2009

just breath just breath

De acordo com Elizabeth Kubler Ross, quando sofremos uma perda catastrófica ou chegamos ao ponto mais fundo do poço, todos nós passamos pelas cinco fases de luto. Nós entramos em negação porque o tormento é tão inimaginável que não conseguimos tomá-lo como verdadeiro. Temos raiva de todos, raiva de nós mesmos. Então nós barganhamos. Nós pleiteamos. Nós oferecemos tudo que temos em troca de mais uma chance. Quando a barganha falha e fica difícil demais sustentar a raiva, caímos em depressão, desespero, sentindo-nos desesperançosos. Até que finalmente percebemos que fizemos tudo que podíamos. Nós desistimos e então passamos à aceitação.

O dicionário define luto como um sofrimento mental intenso ou estresse por aflição ou perda; lamento agudo; arrependimento doloroso. Como cirurgiões, como cientistas, somos ensinados a aprendermos e confiarmos em livros – em definições, em definitivos. Mas na vida, definições exatas raramente se aplicam. Na vida, o luto pode parecer um monte de coisas que pouco se assemelham com lamento agudo.

Luto pode ser algo que todos nós tenhamos em comum, mas ele aparece diferente em cada um. E não só ficamos de luto por morte. Também pela vida. Pela perda. Pela mudança. E quando refletimos porque é tem que ser tão ruim às vezes, porque tem que doer tanto… o que temos que manter em mente é que isso pode mudar a qualquer hora. É assim que você se mantém vivo: quando dói a ponto de não dar pra respirar, é assim que você sobrevive.

Ao se lembrar que, de alguma maneira que seria impossível, você não se sentirá assim. Não vai doer tanto. O luto chega em seu próprio tempo para todos, à sua própria maneira. Então o melhor que podemos fazer – o que qualquer um pode fazer – é vivenciá-lo honestamente. A parte realmente chata, a pior parte do luto, é que você não consegue controlá-lo. O melhor que podemos fazer é tentar permitirmos sentí-lo quando chegar. E deixá-lo partir quando conseguirmos. A pior parte é o momento que você acha que você o superou, e ele recomeça novamente. E sempre, todas as vezes, ele te deixa sem ar.

Há cinco estágios de luto. Eles aparecem diferente em cada um, mas há sempre cinco.  Negação. Raiva. Barganha. Depressão.  Aceitação.

(from Grey’s Anatomy 6×01 -02)

Efeito Urano

setembro 20, 2009

the things I left behind

Com a lucidez dos embriagados se reconheceram desde o primeiro minuto – apesar da incerteza intensificada dos dias que ainda estavam por vir. Eram apenas duas pessoas totalmente distantes quando ele perguntou se ela conhecia aquela música. Sem pensar disse: “mais ou menos”. Ele ficou calado por alguns segundos, como se sentisse ofendido por ela praticamente ignorar sua canção favorita. Não passavam de dois estranhos, em diferentes geografias, vivendo a vida porque se acorda todo o dia (não porque se têm sonhos), que de repente se esbarraram por meio de sons e palavras. Não é simples explicar o que aconteceu, pois só quem já descobriu uma certeza que só se tem uma vez na vida sabe como é terrivelmente bom e terrivelmente assustador amar o que foge dos olhos, do controle e da razão.

E pensar que quando aqueles dois perdidos se encontraram naquele lugar tão inesperado, tão cheio de pessoas que chegavam e partiam constantemente, ela estava tão “segura” em seu pequeno mundinho limitado, onde não existia espaço para encontros e desencontros e infinitas-esperas-de-não-sei-quem. Se identificaram pelas canções, pelo desalento, pelos doces e amargos do viver. O pavor do desconhecido terminou naquele instante: um pouco febril, de pranto contido e sorrisos metade-tímidos-metade-tristes. Ambos só conseguiam pensar que jamais imaginaram encontrar alguém que pudesse compreendê-los tão completamente. Não tinham nada, mas tinham tudo. Tinham um ao outro.

No ar pairava uma espécie de embriaguez quando um dia a canção de amor parou (the end – sem happy), ele pegou suas notas e partiu. Restou o silêncio e a amargura da espera que a fez pensar todos os dias em muitas coisas, como as emoções que tantas pessoas neste mundo por algum motivo deixavam de viver. E assim sofreu – além das suas – as aspirações de todas as partes e os desassossegos de todos os tempos. Muitas vezes depois pensou em quantas vezes aquela música sugeriu coisas que sabia que não podiam ser. Questionava se alguém saberia exatamente o que quer. Chorava por coisas que não foram nunca.

Hoje anda perdida em algum lugar, abraçada ao que sobrou de sua pseudo-alegria, morrendo por tudo, com o coração parado em algum lugar onde se viveu o que jamais imaginou ter vivido. Está abatida de tanto tentar entender a alma humana e as dores causadas por seres, ironicamente, humanos. Vive em busca daquelas mãos, braços, beijos e abraços. Procura em todos os lados por aquele sorriso que esconde um desejo de amar bem disfarçado – para que ninguém veja e se surpreenda com a grandeza do seu coração. Tudo o que aconteceu ainda cansa e a faz pensar se não seriam apenas cicatrizes que se levam quando se morre… Pois sabe bem que não passamos de uma simples lembrança na memória daqueles que vamos deixar por aqui.

“São muitas palavras, tantas quanto os fios de cabelo que caíram, quanto as rugas que ganhei, muito mais que os dentes que perdi. Esta coisa terrível de não ter ninguém para ouvir o meu grito. Esta coisa terrível de estar nesta ilha desde não sei quando. No começo eu esperava, que viesse alguém, um dia. Um avião, um navio, uma nave espacial. Não veio nada, não veio ninguém. Só este céu limpo, às vezes escuro, às vezes claro, mas sempre limpo, uma limpeza que continua além de qualquer coisa que esteja nele. Talvez tudo já tenha terminado e não exista ninguém mais para lá do mar mais longe que eu vejo.”

(Caio F. in: “O mar mais longe que eu vejo”)

Inefável

setembro 6, 2009

brilho-eterno03

Depois de entrar por aquela porta a vontade de chorar era imensa, pois tinha desaprendido como era estar assim entre dois braços – mesmo sabendo que parte da sua alegria era triste. Inábil mas carinhosa, abraçou-o desajeitada, não era hábito essas coisas raras como contatos, afagos e rapidamente se afundou tonta naquele cheiro tão familiar.  O cheiro era a linguagem que ela melhor usava para se comunicar quando se jogava assim nessa espécie de roda-gigante. Sentia algo que não podia explicar e então tudo começava a rodar em silêncio. Essa ausência de palavras faladas traduzia algo como:  que-saudade-que-bom-rever-você-depois-desse-hiato-torturante ou qualquer coisa assim. Mas parte dela acabava ficando sempre do lado de fora, parada, sem saber o que dizer, sem conseguir adivinhar como esse passeio iria acabar.

Acontece assim quando você sai de um lugar que já deixou de ser de alguma maneira seu e vai morar noutro canto, que ainda não começou a ser seu – e talvez nunca comece. Ela ficou meio tonta quando pensava que não poderia ficar e que também não queria – partir. Se sentiu como um daqueles acrobatas de circo que andam numa corda bamba que de repente arrebenta, daí a pessoa fica lá, suspensa no ar, com um vazio embaixo dos pés. Dá para entender? E essa não-continuação era a única espécie de continuação que conhecia. Ficava sempre naquele espaço vazio entre a corda e o chão deixado pela ausência, embora pudesse preenchê-lo – esse espaço vazio sem ele – de muitas formas, de tantas maneiras, com atitudes ou palavras. Ou não-atitudes e não-palavras, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrou, muitas vezes, de ocupar seus dias, seus pensamentos, sua cama, seu computador, suas caminhadas, seus devaneios e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém a quem se adora dentro dela.

Então ela sofria porque sabia que para as pessoas que conhecia, sofrer além do considerado socialmente aceitável é deselegante, é de mau gosto e a transformava em caso de psiquiatria.  Mas ela conseguia ver beleza nessa dor, nesse espaço-entre-a-corda-e-o-chão.  Então à medida que vai envelhecendo, torna-se menos ansiosa em alcançar grandes vitórias na vida e sente a necessidade de cultivar o prazer nas pequenas vitórias do dia-a-dia, como se perder naquele cheiro conhecido que só sentia quando perdida entre aqueles dois únicos braços. Isso tudo certamente a fez prestar atenção nos pequenos prazeres, a recuperar a capacidade de se surpreender em meio à sua constante ânsia por SIGNIFICADO.

Sua vida tem sido uma interminável viagem em rodas-gigantes. Em cada volta acontecem mudanças. A mudança de fazer para o ser. Do saber para o valorizar. Da obsessão para a confiança. Do controle para a aceitação. “O que é, é” – pensou sem julgamentos, sem fuga, sem apego, sem aversão – ou pelo menos, em quantidade incrivelmente modesta. E no momento que percebeu que aqueles momentos raros de contatos  e afagos estavam acabando rapidamente se afundou tonta na tristeza de ter que se afastar daquele cheiro tão único e daquele corpo quente junto ao seu na madrugada. Teve então que partir novamente. Sozinha, sim, mas com uma consciência mais madura de seus pontos sensíveis e uma disposição de tratar com humor e carinho os pontos delicados. Sabia agora que precisava parar de filosofar sobre coisas para as quais não podia achar respostas – porque isso tudo quase arrancou seu coração. Então sua respiração parou por um instante e apagou seu EU, tudo de uma vez.

Em uma atidute de auto-julgamento decidiu que não iria mais sofrer – como se isso fosse possível, já que está longe de ser uma pessoa inteira e auto-suficiente . “Sou  apenas meia pessoa” – pensou então em voz alta com uma espécie de aceitação genuína e paciência melancólica. Sabia que sua vida  tinha um sabor único, perfeito da forma que fosse. Aprendeu então que somente quando se tornasse amiga de seu sofrimento, das suas doenças, da sua dor, conseguiria descobrir  verdadeiramente uma identidade maior e mais abrangente com o mundo onde vive. Sabia que não era mais vítima da vida, mas sua testemunha. Estava constantemente consciente não só dos seus apegos, mas também de suas limitações. Então, no momento de partir, de voltar àquele canto que ainda não era seu – e talvez nunca seria– um tumulto interno se instalou em seus mais diversos níveis emocionais e psicológicos. Dramaticamente iluminada pelo sol do começo da manhã, sentiu uma espécie de amor faminto. Chorou tentando descobrir por entre os aborrecimentos e decepções, por meio do desapego, por que nunca perdera essa mania de querer provar seu valor. Em meio a tantas perguntas sem respostas só tinha uma única coisa como certa em sua vida: “Se o amor não o despedaçar você não saberá o que é o amor”.

“…porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui.” (Caio Fernando Abreu)

Sobre fins e quase-fins

julho 27, 2009

hello stranger

“…tenho me sentido legal. Mas é um legal tão merecido, batalhado…” Essa frase de Caio F. me define muito bem hoje. Faz um bocado de tempo que não escrevo: por falta de oportunidade – o que é bom, porque significa que ando bem ocupada. E por falta de necessidade: tenho mania de fazer da escrita minha terapia – escrevo pra espantar as dores, os temores, as frustrações – o que significa que ando numa fase bem boa depois de seis meses seguidos no “limbo”. Esses dias, em meio a esse período de tantas mudanças, andei pensando muito nas pessoas que passaram pela minha vida nos últimos anos. Tanta gente. Tanta gente! É claro que penso nas pessoas a-d-o-r-á-v-e-i-s (seres péssimos faço questão de esquecer).  Lamentei o fato de alguns terem  ficado ‘pra trás’ (amigos que se casaram, construiram suas famílias ou estão longe demais preocupados com coisas importantes), outros continuam de alguma maneira por perto (via e-mail, Orkut, MSN, Skype, etc.). Recentemente reencontrei alguns amigos de infância-adolescência e foi uma experiência muito boa. Ao mesmo tempo você descobre que muitas coisas mudaram, mas que outras permanecem exatamente iguais.

Eu sou uma pessoa que se apaixona pelos amigos e confesso: a distância de algumas pessoas parte meu coração. É uma ferida que nunca se fecha. Em cada lugar que passei ficou uma lembrança, um pedacinho de mim. Se eu disser que nos últimos dias dos últimos, diríamos, três anos e meio, não teve um só dia que não acordei pensando em uma dessas pessoas, certamente muitos vão achar que é mentira. Mas é verdade. Existem coisas inexplicáveis que acontecem que eu gostaria muito de ter resposta, mas infelizmente (ou felizmente) tenho que aceitar o mistério. Várias vezes por dia me peguei com uma cena sua na cabeça.

Você entrou na minha vida em algum dia de novembro de 2005 e nunca mais saiu. E nesses dias em que andei pensando muito nas pessoas que passaram pela minha vida nos últimos anos me lembrei da sua insistência em ser meu amigo e da minha resistência em aceitar um stranger. Me lembrei daquele dia em que passei 3 horas sentada na escada daquela rodoviária esperando você chegar, daquele beijo na esquina do Mercado Municipal, das músicas que ouvimos de longe – e de perto-, da sua mão tão macia e bonita, do seu sorriso hipnotizante, do pote de café que ganhei, de você cantando feito maluco enquanto dirigia… Me lembrei também do dia em que seu avô morreu e de todos aqueles dias tristes em que você mais precisou de um abraço e que eu não pude fazer nada. Como poderia me esquecer dos momentos em que você entrava por aquela porta? E das manhãs que eu tinha que me despedir de você sem saber se voltaria a te encontrar outra vez? Difícil.

Sabe, aconteceu muita coisa nestes muitos dias em que eu não te vejo. Um pouco mais até do que minha sanidade seria capaz de suportar. Você sabe, às vezes a vida é mais áspera do que supomos. Quando te conheci imaginei que a narrativa da nossa história seria bem diferente disso tudo que foi até aqui. Embora eu acredite em Deus confesso que briguei com ele em muitos momentos. Brigava porque acreditava. E porque não entendia como ele fora capaz de deixar você longe de mim. Eu nunca imaginei que essa distância sempre presente doeria tanto – e por tanto tempo.  Nesse tempo que passou eu te abracei por lembranças e meu sorriso ficou assim, meio triste. Você, uma pessoa que nunca gostou de sentir-se presa, me prendeu pra todo um sempre no seu mundo.

Mas agora, como eu ia dizendo no começo deste post, eu “tenho me sentido legal”. Depois de seis meses eu voltei a dormir uma noite inteira sem remédios. Viver sem você tem sido uma experiência ao mesmo tempo torturante e libertadora. Pensando bem em tudo que aconteceu até aqui, nos grandes e pequenos acontecimentos dessa trajetória, descobri que os melhores momentos foram os inesperados, não os planejados. Por isso estou aprendendo a não perder tempo tentando antecipar e planejar as coisas. Quero me dedicar apenas a viver. Se é impossível controlar, para que gastar tempo tentando? É a incerteza do que nos espera na próxima esquina o encanto da vida. Quanto ao que ficou na lembrança, isso não dá pra ignorar. Como tantas pessoas maravilhosas que caminharam comigo você é parte da minha história. Agora eu sigo aqui, com minha merecida e batalhada alegria e, de alguma maneira, torcendo para que na virada de uma dessas esquinas da vida eu acabe esbarrando outra vez em você.

Porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim – nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse é o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.  (Caio F.)

“…tenho me sentido legal. Mas é um legal tão merecido, batalhado…” Essa frase de Caio F. me define muito bem hoje. Faz um bocado de tempo que não escrevo: por falta de oportunidade – o que é bom, porque significa que ando bem ocupada. E por falta de necessidade: tenho mania de fazer da escrita minha terapia – escrevo pra espantar as dores, os temores, as frustrações – o que significa que ando numa fase bem boa depois de seis meses seguidos no “limbo”. Esses dias, em meio a esse período de tantas mudanças, andei pensando muito nas pessoas que passaram pela minha vida nos últimos anos. Tanta gente. Tanta gente! É claro que penso nas pessoas a-d-o-r-á-v-e-i-s (seres péssimos faço questão de esquecer). Lamentei o fato de alguns terem ficado ‘pra trás’ (amigos que se casaram, construiram suas famílias ou estão longe demais preocupados com coisas importantes), outros continuam de alguma maneira por perto (via e-mail, Orkut, MSN, Skype, etc.). Recentemente reencontrei alguns amigos de infância-adolescência e foi uma experiência muito boa. Ao mesmo tempo você descobre que muitas coisas mudaram, mas que outras permanecem exatamente iguais.

Eu sou uma pessoa que se apaixona pelos amigos e confesso: a distância de algumas pessoas parte meu coração. É uma ferida que nunca se fecha. Em cada lugar que passei ficou uma lembrança, um pedacinho de mim. Se eu disser que os últimos dias, dos últimos – diríamos, três anos e meio – não teve um só dia que não acordei pensando em uma dessas pessoas, certamente as pessoas não acreditariam. Mas é verdade. Existem coisas inexplicáveis que acontecem que eu gostaria muito de ter resposta, mas infelizmente (ou felizmente) tenho que aceitar o mistério. Várias vezes por dia me peguei com uma cena sua na cabeça.

Você entrou na minha vida em algum dia de novembro de 2005 e nunca mais saiu. E nesses dias em que andei pensando muito nas pessoas que passaram pela minha vida nos últimos anos me lembrei da sua insistência em ser meu amigo e da minha resistência em aceitar um stranger. Me lembrei daquele dia em que passei 3 horas sentada na escada daquela rodoviária esperando você chegar, daquele beijo na esquina do Mercado Municipal, das músicas que ouvimos de longe ou perto, da sua mão tão macia e bonita, do seu sorriso hipnotizante, do pote de café que ganhei, de você cantando feito maluco enquanto dirigia… Me lembrei também do dia em que seu avô morreu e de todos aqueles dias tristes em que você mais precisou de um abraço e que eu não pude fazer nada. Como poderia me esquecer dos momentos em que você entrava por aquela porta? E das manhãs que eu tinha que me despedir de você sem saber se voltaria a te encontrar outra vez ? Difícil.

Sabe, aconteceu muita coisa neste ano em que eu não te vi. Um pouco mais até do que minha sanidade seria capaz de suportar. Você sabe, às vezes a vida é mais áspera do que supomos. Quando te conheci, eu imaginei que a narrativa da minha história seria bem diferente disso tudo que foi até aqui. Embora eu acredite em Deus confesso que briguei com ele em muitos momentos. Brigava porque acreditava. E porque não entendia como ele fora capaz de deixar você longe de mim. Eu nunca imaginei que essa distância sempre presente doeria tanto – e por tanto tempo. Sabe, nesse tempo que passou eu te abracei por lembranças e meu sorriso ficou assim, meio triste. Você, uma pessoa que nunca gostou de sentir-se presa, me prendeu pra todo um sempre no seu mundo.

Mas agora, como eu ia dizendo no começo deste post, eu “tenho me sentido legal”. Depois de seis meses eu voltei a dormir uma noite inteira sem remédios. Viver sem você tem sido uma experiência ao mesmo tempo torturante e libertadora. Pensando bem em tudo que aconteceu até aqui, nos grandes e pequenos acontecimentos dessa trajetória, descobri que os melhores momentos foram os inesperados, não os planejados. Por isso estou aprendendo a não perder tempo tentando antecipar e planejar as coisas. Quero me dedicar apenas a viver. Se é impossível controlar, para que gastar tempo tentando? É a incerteza do que nos espera na próxima esquina o encanto da vida. Quanto ao que ficou na lembrança, isso não dá pra apagar. Como tantas pessoas maravilhosas que caminharam comigo você é parte da minha história. Agora eu sigo aqui, com minha merecida e batalhada alegria e, de alguma maneira, torcendo para que na virada de uma dessas esquinas da vida eu acabe esbarrando em você.