Posts Tagged ‘Eliane Brum’

Ele não sabia ficar parado

dezembro 10, 2009

28/11/2009

“Essencialmente um trabalhador”. Seria a maneira que Ernesto Caciolato definiria a si mesmo.  Morreu aos 85 anos, em um hospital de Cornélio Procópio, no Norte Pioneiro do Paraná. A principal causa foi a doença de Parkinson. Filho de Caetano Caciolato (descendente de Italianos) com Antônia Pinhata (de família originária de Minas Gerais) era mestre de obras. Trabalhou boa parte da vida na construção e manutenção de salas de cinema no interior de São Paulo e Paraná. Hoje, muitos desses cinemas (senão a maioria) viraram igrejas, lojas ou foram inteiramente demolidos. Viúvo, deixou muitos irmãos, sete filhos, 17 netos, cinco bisnetos.

Homem humilde, quieto, reservado, honesto, rígido e organizado. Poderia ficar longe dos filhos, mas jamais se separava de sua caixa de ferramentas. De acordo com o Google o nome “Ernesto” tem origem inglesa e significa “aquele que combate”. Realmente, meu avô foi um guerreiro, não conhecia a preguiça e sempre valorizou a própria personalidade. Isso é tudo e somente o que sei sobre ele. Sujeito formidável em seu quase-anonimato. Gente que ganhava pouco para fazer muito. Construiu espaços que abrigaram a arte, o sonho, o romance… Realizou obras que podem ter mudado direta e indiretamente a vida de muitas pessoas.

Descobri esses dias que minha avó materna entrou em depressão muito jovem, depois de um aborto natural que comprometeu seu útero – que foi retirado. Naquela época de pouca informação e muitas crendices, ela foi vítima de preconceito e chacotas. Acreditava que não era mais “mulher”. Nunca mais foi a mesma pessoa. Acho que meu avô não compreendia muito bem essa coisa complexa conhecida como “depressão”, mas seguiram juntos. Ele a enterrou primeiro.

Poderia narrar aqui os detalhes dos últimos anos, meses ou até dias da vida do meu avô. Mas não vale a pena ficar relembrando momentos de sofrimento quando se teve tanta vida cheia de saúde e disposição (não sei se posso dizer de “felicidade”). Acho, sim, que ele começou a morrer quando descobriu que não poderia mais trabalhar. Então seu coração foi virando tijolos e seus ossos vigas de ferro enferrujadas.

Conheci recentemente uma pessoa sobre a qual eu nunca havia ouvido falar e fiquei chateada por não ter tido a chance de conhecê-la de verdade. Queria escrever um obituário rico em detalhes (que pudesse até ser usado como roteiro de cinema) que contasse os detalhes da vida desse homem que conseguiu me cativar quando não tinha mais nada para oferecer, mas as informações se perderam no tempo, não foram contadas. Não se pode fazer um filme sem começo, sem meio… por enquanto vou me contentar com a sinopse. Quanto ao final do filme já se sabe, será o mesmo para todos.

“Encarar a morte com naturalidade é o mais longe da morbidez que se pode estar. Só espero ter sabedoria para viver minha vida com intensidade até o último suspiro. E sabedoria para morrer, sem tentar espichar a vida nem abreviá-la. Não gostaria de morrer de repente, como tantos desejam. A curiosidade sempre moveu meus passos. Quando a morte chegar, não quero perder a única chance de olhar no seu olho. Quero saber o que é morrer. Quero me lambuzar de morte como me lambuzei de vida. Quero viver. Até o fim.” (Eliane Brum)

Medo de chester (Eliane Brum)

dezembro 8, 2009

Por que nos deixamos enlouquecer no fim do ano?

Não sei quando aconteceu. Eu era do tipo que ficava toda faceira quando via a cidade iluminada para o Natal. Achava tudo lindo. Agora, eu rosno para as luzinhas. Decorações natalinas de shoppings me irritam. Panetone, mesmo antes do episódio Arruda, me tiravam do sério. Ontem fui pegar o elevador do prédio em que moro e dei de cara com uma bota de Papai Noel pendurada na porta. Rosnei. A ideia de me reunir à manada que vai às compras gastar o 13º me arrepia. Aqui em casa, os enfeites natalinos e o pinheirinho não saem da caixa há anos. Me escondo dos amigos-secretos como posso, mas de um jeito ou outro eles me descobrem. Já são dois! Acho que virei o duende malvado do Natal. Não faço mal para ninguém nem quero estripar o Papai Noel. Mas rosno.

Rhhhhhuuuuuuuuum. Humpft. Grunft. Algo assim.

O caso é que cada vez eu fico mais louca no Natal. E vejo todo mundo ficando louco ao meu redor. Para mim, a instalação das luzinhas natalinas marca a abertura da temporada de suplício, uma versão pós-moderna da via-crúcis.

Percebo que não sou a única. Muitos sofrem pelas esquinas, querem que o ano acabe antes, prefeririam acordar no Carnaval.

Sei que há um monte de gente que adora esta época do ano. Tenho um grupo de amigas que se reuniram na casa de uma delas na semana passada para arrumar a árvore de Natal na maior empolgação. Minha mãe passa o ano guardando dinheiro para os presentes. E minha avó fazia isso antes dela. E eu preciso confessar que tenho meus momentos.

Mas uma parte da humanidade gostaria de pular esta época do ano. Tenho um amigo que, na impossibilidade de saltar as festas de fim de ano, tentou pular pela janela na véspera e passou o Natal internado numa ala psiquiátrica. Esta parte da humanidade, da qual ele e às vezes eu fazemos parte, não tem direito à voz. Somos discriminados, olhados como párias. Não possuir espírito natalino é considerado quase uma deficiência, um desvio de caráter. Além de não conseguirmos ficar felizes embaixo de um pinheiro, nós, os anti-natalinos, ainda nos sentimos culpados.

Depois que você se casa, piora. É imperativo fazer um curso intensivo de diplomacia para apaziguar as respectivas famílias. O “quem vai passar com quem” o Natal e o Réveillon vira uma obra de estrategista. Nós, os casados com famílias em diferentes cidades, não cometeríamos erros básicos como invadir a Rússia no inverno, por exemplo.

Temos visão de futuro e olhos de lince. Mas coração mole. Para agradar a todos, gastamos parte dos dias de folga peregrinando por aeroportos. Como as companhias aéreas não têm espírito natalino, deixamos uma parte do 13º salário, justo aquela que não gastamos com presentes, num daqueles aviões que nos tratam como se fôssemos chimpanzés de zoológico e só nos dão amendoins.

Quando chega a hora da ceia, estamos exaustos e famintos. Eu, por exemplo, como qualquer coisa. Já comi até larva na falta de coisa melhor numa de minhas incursões pela floresta amazônica. Mas tenho medo de chester. Medo não, pavor. Começou anos atrás. Havia congelado o chester que ganhei da firma e, num domingo de geladeira particularmente vazia, resolvi assá-lo.

Não conseguia desgrudar os olhos do vidro do forno. Era estranho demais um bicho quase só coxa e peito. Como ele não me parecia deste mundo, também não me parecia que morria. Fui buscar instruções, uma bula. Estava escrito: “ave”. Como assim, ave?

Assei, assei, assei… e o chester continuava lá, morto-vivo. Ave. Não consegui. Não sou nem vegetariana nem cristã, mas me pareceu pecado comer aquele ser inventado só para ser comido.

Depois desta tragédia anunciada, me perguntam: o que você vai fazer no réveillon? Nada. Se tudo der certo, vou estar dormindo. Sempre me dá sono um pouco antes da meia-noite. Adoro uma festa, mas nenhuma em que eu tenha de fazer balanço do ano ao mesmo tempo.
Pretendo estar ronronando no sofá azul lá de casa, depois de ver um filme, ler um livro ou divagar com o João. Mas, claro, meu projeto está ameaçado pelos milhares de fogos que vão espocar ao meu redor.

Rrrrrhhhhhhhhhhhmmmmm. Humpft. Grunft.

Por que não ir para algum paraíso tropical? Ou para o meio do mato? Porque não existe nenhuma destas modalidades nesta época do ano. Todos nós temos a mesma ideia. E, assim, todos “os lugares paradisíacos e distantes das grandes cidades” se transformam em sucursais do inferno com pernilongos sem grife e preços da Daslu. E para chegar lá você fica horas empatado no trânsito ou no saguão do aeroporto. E se você ligar o rádio do carro ou a TV para matar o tempo enquanto espera vai ouvir mensagens. Ou a voz do Roberto Carlos. Eu gosto do Roberto em todas as épocas do ano, menos nesta.

Caso pense em se distrair comprando uma revista, vai ser intimado a ticar todas as resoluções que não cumpriu no ano que passou e fazer uma nova lista de tarefas. Ou vai precisar encarar páginas e mais páginas com receitas de como mudar de vida e ser mais leve no ano que se inicia. As festas de fim de ano marcam também a época de reprodução dos especialistas em felicidade alheia. Nós deveríamos sair em bloco, empunhando bombas de inseticida, para impedir que isso acontecesse, mas estamos presos em alguma confraternização.

E tudo isso ainda pode piorar muito se, como acontece em 99% das famílias, alguém encher a cara ou surtar e acabar tudo em mágoa, com todos os nossos esforços escoando pelo ralo junto com o espumante.

Quando tudo isso acaba, o ano recém começou. Você está endividado. Exausto. Diante de você há uma lista de resoluções e uma agenda em branco. Você acabou de vencer a maior tarefa do ano e já tem diante de si uma lista delas.

Sei que é difícil compreender, em meio a tantas luzes. Mas, como no genial Bartleby, o escriturário, de Herman Melville (sempre um ótimo presente de Natal, aliás), há quem diga, diante das promessas de Ano-Novo: “Prefiro não”.

Nós respeitamos quem prefere sim. E genuinamente aprecia. Mas não discriminem quem prefere cuspir nas luzinhas de Natal. Não olhem para nós como se fôssemos primos daquela bactéria descoberta em Marte. Nós, os anti-natalinos, também temos sentimentos. E o chester é nosso amigo.

(Eliane Brum escreve no site da
revista “Época” às segundas-feiras.)

Knockin’ on Heaven’s Door

março 24, 2009

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Senhor Deus será que podes me dizer o que é certo e o que é errado? se amar demais é errado então imagino que amar de menos estaria correto, não é? o Senhor ou qualquer outra pessoa esclarecida  certamente me responderia que pra tudo é necessário um equilíbrio. eu então pergunto: como se mede o equilíbrio? e o que diferencia uma pessoa confusa de outra esclarecida? como se chega ao tal esclarecimento? já me disseram uma vez que os esclarecidos são pessoas mais felizes. mas se o fim do sofrimento vem com o fim do desejo, como é possível ser feliz sem desejar qualquer coisa? ouvi muitas vezes por aí que não é necessário estar com alguém para ser feliz. mas afinal, qual a graça de viver um momento especial sem ter com quem compartilhar? como se mede qualquer coisa sozinho?  e como explicar o fato de muitas vezes o que faz uma pessoa feliz deixa a outra triste? ah Deus, o Senhor deve estar pensando que eu não ando muito bem da cabeça, né? me explica então o que é estar bem? como se mede a normalidade de um ser humano? sempre acreditei que não é normal alguém ser completamente normal. Deus, porque vivemos numa sociedade que não nos permite errar, se do começo ao fim da vida estamos num jogo eterno de tentativa e erro? me desculpe Deus, mas na minha opinião essa sociedade é bem burra, já que não existe acerto sem erro. como se diferencia o que é certo do que é errado? minha intuição diz que a  gente precisa aprender alguma coisa pra poder sobreviver, seja com as falhas ou acertos. Deus, como se define essa tal intuição? olha, imagino que a intuição seja uma espécie de razão experiente, saca? e a imaginação, Pai Celeste, qual é a razão dela existir? não sei o que tu me  responderias, sábio Deus, mas uma coisa eu garanto: quando imaginamos podemos nos enganar sem culpa.

“Olhar dá medo porque é risco. Se estivermos realmente decididos a enxergar não sabemos o que vamos ver… Tudo o que somos de melhor é resultado do espanto. Como prescindir a possibilidade de se espantar? O melhor de ir para a rua espiar o mundo é que não sabemos o que vamos encontrar. Essa é a graça de ser repórter. (Essa é a graça de ser gente.)  ~ Eliane Brum em “A Vida que Ninguém Vê” ~

speechless

novembro 30, 2008

42-16920647

Existe sempre alguma coisa ausente, um vazio, um buraco, um hiato, um silêncio. Sentimos uma imensa, profunda falta de alguma coisa que não sabemos o que é. Seria alguém? Alguma coisa que perdemos pelo caminho? Um segredo? O tempo que passou? Os anos que não voltam mais?

Alguma coisa sempre faz falta, mas não sabemos o que é. Só é possível saber que essa ausência dói, machuca demais – dia após dia – sem remédio nem cura. Seria a dor dessas intermináveis esperas, desses chamados que não chegaram e quando vinham nunca traziam nem a palavra e nem a pessoa esperada? Ou a dor de saber que algumas coisas temos que viver e aprender de novo, e de novo, e de novo?

Talvez esse vazio não seja nada mais que a verdade, quando descobrimos que nada foi como esperávamos ou planejamos. Quando não sabemos quem ou o que realmente somos. Queremos sempre acreditar que existe apenas uma versão da verdade, contada por nós mesmos. Mas daí surge alguém que insiste em dar sua versão. A verdade é… há diversos tipos de verdades:  a verdade encoberta, a verdade nua e crua. Meias verdades, verdades completas. Verdades brandas, verdades avassaladoras.  E a verdade que dói – essa verdade nós nunca queremos ouvir. A grande verdade é que somos todos comuns e sozinhos – e isso dói.

“Acho que há excesso de palavras faladas no mundo porque as pessoas temem em se ouvir, caso silenciem. Minha teoria pessoal é que falam por medo do que o silêncio pode revelar sobre elas. Ou falam para encobrir o fato de que não têm nada a dizer.” (Eliane Brum in “O Olho da Rua”)