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Medo de chester (Eliane Brum)

dezembro 8, 2009

Por que nos deixamos enlouquecer no fim do ano?

Não sei quando aconteceu. Eu era do tipo que ficava toda faceira quando via a cidade iluminada para o Natal. Achava tudo lindo. Agora, eu rosno para as luzinhas. Decorações natalinas de shoppings me irritam. Panetone, mesmo antes do episódio Arruda, me tiravam do sério. Ontem fui pegar o elevador do prédio em que moro e dei de cara com uma bota de Papai Noel pendurada na porta. Rosnei. A ideia de me reunir à manada que vai às compras gastar o 13º me arrepia. Aqui em casa, os enfeites natalinos e o pinheirinho não saem da caixa há anos. Me escondo dos amigos-secretos como posso, mas de um jeito ou outro eles me descobrem. Já são dois! Acho que virei o duende malvado do Natal. Não faço mal para ninguém nem quero estripar o Papai Noel. Mas rosno.

Rhhhhhuuuuuuuuum. Humpft. Grunft. Algo assim.

O caso é que cada vez eu fico mais louca no Natal. E vejo todo mundo ficando louco ao meu redor. Para mim, a instalação das luzinhas natalinas marca a abertura da temporada de suplício, uma versão pós-moderna da via-crúcis.

Percebo que não sou a única. Muitos sofrem pelas esquinas, querem que o ano acabe antes, prefeririam acordar no Carnaval.

Sei que há um monte de gente que adora esta época do ano. Tenho um grupo de amigas que se reuniram na casa de uma delas na semana passada para arrumar a árvore de Natal na maior empolgação. Minha mãe passa o ano guardando dinheiro para os presentes. E minha avó fazia isso antes dela. E eu preciso confessar que tenho meus momentos.

Mas uma parte da humanidade gostaria de pular esta época do ano. Tenho um amigo que, na impossibilidade de saltar as festas de fim de ano, tentou pular pela janela na véspera e passou o Natal internado numa ala psiquiátrica. Esta parte da humanidade, da qual ele e às vezes eu fazemos parte, não tem direito à voz. Somos discriminados, olhados como párias. Não possuir espírito natalino é considerado quase uma deficiência, um desvio de caráter. Além de não conseguirmos ficar felizes embaixo de um pinheiro, nós, os anti-natalinos, ainda nos sentimos culpados.

Depois que você se casa, piora. É imperativo fazer um curso intensivo de diplomacia para apaziguar as respectivas famílias. O “quem vai passar com quem” o Natal e o Réveillon vira uma obra de estrategista. Nós, os casados com famílias em diferentes cidades, não cometeríamos erros básicos como invadir a Rússia no inverno, por exemplo.

Temos visão de futuro e olhos de lince. Mas coração mole. Para agradar a todos, gastamos parte dos dias de folga peregrinando por aeroportos. Como as companhias aéreas não têm espírito natalino, deixamos uma parte do 13º salário, justo aquela que não gastamos com presentes, num daqueles aviões que nos tratam como se fôssemos chimpanzés de zoológico e só nos dão amendoins.

Quando chega a hora da ceia, estamos exaustos e famintos. Eu, por exemplo, como qualquer coisa. Já comi até larva na falta de coisa melhor numa de minhas incursões pela floresta amazônica. Mas tenho medo de chester. Medo não, pavor. Começou anos atrás. Havia congelado o chester que ganhei da firma e, num domingo de geladeira particularmente vazia, resolvi assá-lo.

Não conseguia desgrudar os olhos do vidro do forno. Era estranho demais um bicho quase só coxa e peito. Como ele não me parecia deste mundo, também não me parecia que morria. Fui buscar instruções, uma bula. Estava escrito: “ave”. Como assim, ave?

Assei, assei, assei… e o chester continuava lá, morto-vivo. Ave. Não consegui. Não sou nem vegetariana nem cristã, mas me pareceu pecado comer aquele ser inventado só para ser comido.

Depois desta tragédia anunciada, me perguntam: o que você vai fazer no réveillon? Nada. Se tudo der certo, vou estar dormindo. Sempre me dá sono um pouco antes da meia-noite. Adoro uma festa, mas nenhuma em que eu tenha de fazer balanço do ano ao mesmo tempo.
Pretendo estar ronronando no sofá azul lá de casa, depois de ver um filme, ler um livro ou divagar com o João. Mas, claro, meu projeto está ameaçado pelos milhares de fogos que vão espocar ao meu redor.

Rrrrrhhhhhhhhhhhmmmmm. Humpft. Grunft.

Por que não ir para algum paraíso tropical? Ou para o meio do mato? Porque não existe nenhuma destas modalidades nesta época do ano. Todos nós temos a mesma ideia. E, assim, todos “os lugares paradisíacos e distantes das grandes cidades” se transformam em sucursais do inferno com pernilongos sem grife e preços da Daslu. E para chegar lá você fica horas empatado no trânsito ou no saguão do aeroporto. E se você ligar o rádio do carro ou a TV para matar o tempo enquanto espera vai ouvir mensagens. Ou a voz do Roberto Carlos. Eu gosto do Roberto em todas as épocas do ano, menos nesta.

Caso pense em se distrair comprando uma revista, vai ser intimado a ticar todas as resoluções que não cumpriu no ano que passou e fazer uma nova lista de tarefas. Ou vai precisar encarar páginas e mais páginas com receitas de como mudar de vida e ser mais leve no ano que se inicia. As festas de fim de ano marcam também a época de reprodução dos especialistas em felicidade alheia. Nós deveríamos sair em bloco, empunhando bombas de inseticida, para impedir que isso acontecesse, mas estamos presos em alguma confraternização.

E tudo isso ainda pode piorar muito se, como acontece em 99% das famílias, alguém encher a cara ou surtar e acabar tudo em mágoa, com todos os nossos esforços escoando pelo ralo junto com o espumante.

Quando tudo isso acaba, o ano recém começou. Você está endividado. Exausto. Diante de você há uma lista de resoluções e uma agenda em branco. Você acabou de vencer a maior tarefa do ano e já tem diante de si uma lista delas.

Sei que é difícil compreender, em meio a tantas luzes. Mas, como no genial Bartleby, o escriturário, de Herman Melville (sempre um ótimo presente de Natal, aliás), há quem diga, diante das promessas de Ano-Novo: “Prefiro não”.

Nós respeitamos quem prefere sim. E genuinamente aprecia. Mas não discriminem quem prefere cuspir nas luzinhas de Natal. Não olhem para nós como se fôssemos primos daquela bactéria descoberta em Marte. Nós, os anti-natalinos, também temos sentimentos. E o chester é nosso amigo.

(Eliane Brum escreve no site da
revista “Época” às segundas-feiras.)